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quinta-feira, 5 de março de 2009

ESCÂNDALO - A PEDRA DE TROPEÇO NO CAMINHO - SKANDALON E SKANDALIZEIN


Skandalon é a palavra que a ARA (Bíblia de Almeida, Revista e Atualizada) traduz por “escândalo”, “tropeço”, “armadilha”, e “cilada”, e skandalizein é o verbo correspondente. O que há de interessante nesta palavra é o fato de ela ter por trás de si não um retrato, mas dois, e a distinção entre os dois freqüentemente nos oferece¬rá um quadro muito mais vivido.
A palavra skandalon não é de modo algum uma palavra do grego clássico. É grego posterior e, na realidade, é muito mais comum na Septuaginta e no NT do que em qualquer outro lugar. O equivalente clássico é skandalêthron, que significa “a vareta com isca na armadilha”. O skandalêthron era o braço ou a vareta em que a isca era fixada. O animal para o qual a armadilha era armada era levado pela isca a tocar ou pisar na vareta; a vareta acionava uma mola, e assim o animal era conduzido à sua captura ou destruição. No grego clássico a palavra é usada por Aristófanes a respeito das “armadilhas verbais” armadas para levar uma pessoa a ser derrotada num argumento. Portanto, fica claro que a qualidade original da palavra não era tanto “uma pedra de tropeço” para fazer alguém tropeçar, mas uma “atração” para levar alguém à destruição.
Quando nos voltamos para a Septuaginta percebemos que esta distinção ainda está bem clara. A palavra grega skandalon é usada para traduzir duas palavras hebraicas. (a) É usada para traduzir a palavra michsol, que bem claramente significa uma “pedra de tropeço”. Assim está em Lv 19.14: “Não porás tropeço diante do cego.” É usada assim no Sl 119.165: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço.” (b) É usada para traduzir a palavra mokesh, que certamente significa “um laço” ou “uma armadilha”. Sendo assim, declara-se em Js 23.13 que as alianças com as nações estrangeiras são “laços” e “redes”. No Sl 140.5 o salmista diz que os soberbos ocultaram “armadilhas” e cordas contra ele; estenderam uma “rede” à beira do caminho; armaram “ciladas” contra ele. No Sl 141.9 o salmista ora: “Guarda-me dos laços que me armaram, e das armadilhas dos que praticam iniqüidade.” No Sl 69.22 o salmista diz: “Sua mesa torne-se-lhes diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha.” A idéia é que o sucesso e a prosperidade podem tornar-se em armadilha em lugar da bênção. Na Septuaginta, portanto, a palavra skandalon tem duas idéias por trás dela. Significa ou uma “pedra de tropeço”, objeto colocado no caminho de um homem para fazê-lo tropeçar, ou “uma armadilha”, “uma isca”, “um engodo” para atraí-lo para fora do seu caminho e assim arruiná-lo.
Quando nos voltamos ao NT descobrimos que a ARA quase sempre traduz skandalon por “tropeço”, palavra esta que é melhor entendida quando vamos àquelas passagens com o sentido duplo de skandalon em nossas mentes; achamos que em certas passagens o outro significado oferece um quadro mais vivo.
(i) Há algumas passagens onde qualquer dos significados é perfeitamente apropriado. Em Mt 13.41 diz-se que o Filho do homem removerá todos os skandala do Seu Reino. Quando o Reino vier, todas as coisas que pretendem levar o homem a pecar, todas as coisas que poderiam fazê-lo tropeçar, todas as coisas que o atrairiam e o seduziriam para o caminho errado serio removidas. O Reino será um estado de coisas onde a tentação perderá o seu poder.
(ii) Há algumas passagens onde o significado ”pedra de tropeço” é mais apropriado, ou onde é até mesmo essencial. Em Rm 14.13 somos proibidos de colocar “tropeço” ou “escândalo” ao nosso irmão. A palavra aqui traduzida “escândalo” é proskomma, que significa “barreira,” “impedimento,” “obstáculo que bloqueia a estrada”. É a palavra que seria útil para descrever uma árvore que foi cortada e colocada atravessando a estrada para bloqueá-la. Nunca devemos praticar ou permitir coisa alguma que seja um obstáculo no caminho para a bondade. Em Mt 13.21 declara-se que o ouvinte superficial da palavra é “escandalizado” (skandalizein) pela perseguição. A perseguição é um tropeço que o impede de avançar pelo caminho cristão. Os fariseus “se escandalizaram” com Jesus e Suas palavras (Mt 15.12). Jesus prediz que todos os Seus discípulos se “escandalizarão” com Ele (Mt 26.31). Os falsos mestres armam “ciladas” diante dos outros (Ap 2.14). Os judeus acham a cruz de Cristo um “escândalo” (1 Co 1.23; Gl 5.11). Em todos estes casos, as palavras significam algo que impede o progresso de um homem, algo que o faz tropeçar, algo que lhe impede o caminho. Esse “algo” pode provir da atuação maliciosa dos outros, ou pode provir do preconceito e orgulho do próprio coração do homem.
(iii) Mas há certos casos em que obtemos um quadro muito melhor ao entendermos skandalon e skandalizein no sentido de um “ardil”, uma “armadilha”, uma “isca”, uma “sedução”, um “engodo para o pecado”. Rm 16.17 adverte contra aqueles que provocam divisões e “escândalos” em desacordo com a doutrina que o povo de Cristo recebeu. Esta é uma advertência contra aqueles que nos querem desviar do caminho da fé verdadeira. 1 Jo 2.10 diz: “Aquele que ama a seu irmão, permanece na luz e nele não há nenhum tropeço.” Isto quer dizer: “Ele nunca atrairia nem seduziria alguém para o pecado.” Mt 18.6 fala do pecado de “fazer tropeçar” um destes pequeninos, e o versículo seguinte fala de quão terríveis são os “escândalos”. Obtemos um quadro muito melhor se entendermos skandalon e skandalizein ali no sentido de seduzir as pessoas mais jovens e mais influenciáveis para o pecado. Mt 5.29 e 30 falam da necessidade de cortar e de arrancar a mão e o olho que nos “fazem tropeçar”. Claramente, é melhor entender skandalon no sentido daquilo que arma uma cilada ou armadilha para nos seduzir pra a ruína do pecado. Se os desejos da mão e do olho são uma isca para o pecado, devem ser erradicados.
Quando o poeta Burns foi aprender a cardar linho, ficou conhecendo um homem mais velho que o levou para longe do caminho. Disse a respeito dele depois: “Sua amizade me causou dano.” É exatamente este o significado de skandalon. Um skandalon é aquilo que nos faz tropeçar ou que nos seduz para o pecado. Tais coisas devem ser desarraigadas das nossas próprias vidas; Deus não nos considerará inocentes se levarmos tais coisas para as vidas dos outros.

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