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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A Contextualização da Linguagem


Um dia desses, recebi um convite para fazer uma coisa que nunca fiz: pregar quatro dias numa congregação humilde, incrustada numa comunidade de agricultores, no sertão do Ceará.
Escolhi textos, selecionei ilustrações e escrevi o esboço com alguns comentários. Depois, lembrei de que o pastor me dissera que a comunidade era praticamente analfabeta, e rumei para casa de Hermenegildo para pedir ajuda.
Mené coçou a cabeça e comentou com ar de dúvida:
– Pastô, num sei se posso lhe ajudar, não. Faz muito tempo que saí do sertão e num sei se me “alembro” da “falação” de matu-to. Mas, Zé da Lua, meu primo de Catolé, tá aqui e pode ser que ele lhe ajude.
Mené foi lá dentro e voltou com um sertanejo parecido com e-le, mais ou menos da mesma idade. Era mais alto, bem mais ma-gro, e andava assim meio encurvado (carregando a seca nas cos-tas), rodando um chapéu de palha nas mãos e saltando os olhos desconfiados de um lado para o outro.
O Zé concordou em ser meu “assessor lingüistico”, meu “aju-dante de palavrório” (como diria Hermenegildo) ou meu “professor de matutice” (como talvez dissesse o próprio Zé), e assim que co-mecei a ler ele me interrompeu.
– Vosmicê me adisculpe, mas vô preguntá torto pro sinhô me arrespondê direito: Voismicê vai lê esse papé pru lá?... Eu num sei não... Mas acho mió o sinhô num levá nada pra lê...
– Por que? – perguntei surpreso.
– Pru nada... Mas nos “comiço” de Catolé, nós da roça já se arresolveu: im “cadidato” que lê papé no palanque, nós num vota.
A primeira coisa que discutimos foi sobre a Parábola do Rico Insensato. Zé da Lua me falou:
– “Seu pastô me adisculpe a inguinorança, mas o que é ‘parábla’”?
Tentei explicar da melhor forma possível.
– Tá muito certo, “seu pastô, mas acho mió vosmicê entrá di-reto no assunto, pru lá. Vá chamando logo de “histora” que esse tá de “parábla”, nós num assunta o que é, não. E me adisculpe de novo, seu “pastô”. Eu sô mais véio e volu lhe dá um conseio: num vá cheio de pabulage e palavreado “delfícil” não, que vosmicê num arruma muita coisa. Nos comiço de Catolé, nós tomém arresolvemos num votá im candidato que fala “delfícil”. Sabe pru que? Nós adiscubrimos que “candidato que nós num intende é candidato que num intende nós.”
Substituí “Parábola” por “História” e continuamos a tradução do sermão e da Bíblia para o idioma roceiro de Catolé (espero que seja o mesmo idioma falado em Macambira – onde vou pregar). Depois discutimos o significado da palavra insensato, coisa que, para minha surpresa, nem mesmo Mené sabia direito, a “Parábola do Rico Insensato” tinha se transformado em a “História do Fazendeiro ‘Alesado’”.
Zé da Lua achou que assim o pessoal poderia entender me-lhor mas Hermenegildo estava meio encabulado:
– Pastor, eu não sei não. Eu conheço o senhor, sei que o se-nhor é um servo de Deus, mas acho que o senhor tá “ijagerando”.
Tentei explicar a Hermenegildo o que é uma tradução dinâmica e, de repente, Zé da Lua me interrompeu.
– Vosmicê me adisculpe “astra” vez, seu pastô, mas o sinhó faz rima?
– Faço não. Por que?
– Pru nada... Se fizesse... sumana passada apareceu lá um homem arrecitando uns velsos que todo mundo ficou assim oian-do... E safona, o sinhô toca?
– Toco não.
– E viola?
– Também não. Por que?
– Pru nada... Se tocasse.... Quando aparece cantadô pru lá... cada velso!... cada musga... Vilge... num tem quem assossegue!... Se vosmicê “botasse os velso que vosmicê num faz na sanfona que vosmicê num toca”, eu agaranto que todo mundo lá entrava “na lei”.
Gradativamente, com auxílio do “cinzel” de Zé da lua, meu material escrito foi se modificando, e mudando de lugar. Deixou as linhas frias e simétricas da cidade e foi tomando formas arredondadas, mais primitivas e campestres. Uma espécie de escultura às avessas.
Fui adaptando todo o meu material ilustrativo ao universo de Zé da Lua, dando-lhe motivos campesinos ou de cidades peque-nas de interior. Um interessante conto de Alphonse Daudet, “A morte do Delfim”, transformou-se na “Morte do Filho do Coronel”. Os personagens burgueses de Tchecov transformaram-se em “Coronel Tonho”, “Mané da Bodega”, “Doutor Inácio” ou outros fazendeiros, comerciantes, médicos, conhecidos de Zé da lua. Transformei reis em prefeitos e generais em delegados. As histórias de guerras e heróis foram transformadas em histórias de cangaço, onde os cangaceiros (ao sabor da opinião de Zé da Lua) eram heróis ou bandidos.
O mais difícil, porém, continuava sendo o trabalho de exege-se. Como é que o pessoal de Macambira iria entender um texto como “o amor de Cristo me constrange”? Curiosamente, Hermenegildo pensava que sabia.
– É fácil, pastor. O amor de Cristo me “alumia” a alma, enche o coração.
Expliquei a Hermenegildo que o sentido não era bem esse e, depois de um bom pedaço de tempo, chegamos a duas tradu-ções. Descartei a primeira, “o amor de Cristo me avexa” por achar que a urgência não faz parte da palavra em jogo e aceitei a segunda (tradução completa de Zé da Lua) “o amor de Cristo me aperreia”.
Depois de um bom período de trabalho conjunto em cima de versículos, idéias e ilustrações, faltava apenas a “Parábola do Fariseu e do Publicano”.
– Valha-me Nossa Sinhora! – exclamou Zé da Lua – Que dia-cho é isso, seu pastô?
Expliquei que fariseu era aquele sujeito que rezava muito, vi-via o tempo todo na igreja...
– De pé de padre? Perguntou Zé da Lua.
– De pé de padre. – confirmei eu.
...mas só olhava os defeitos dos outros. Queria endireitar os outros, não se endireitava, e ainda achava que só ele era o certo e o santo.
E publicano? – perguntou bem certinho Zé da Lua.
– Você não sabe o que é? – perguntei um tanto desnecessariamente.
– Nunca ouvi falar... mas só se for o “capiroto” o “demo”.
Sorri da idéia de Zé da Lua e expliquei que publicano era um homem comum, como os outros, mas que todo mundo o chamava de traidor...
– Traidô pru que?
– Porque ele cobrava dinheiro para os estrangeiros e ainda recebia suborno. Gorgeta... Bola!... Você sabe o que é?
Zé da Lua sabia.
Pensei que fosse praticamente impossível encontrar tipos correspondentes no universo de Zé da Lua, quando este me exclamou, visivelmente feliz:
– Se pastô, aparece que já assuntei.
E sob os olhares enviesados de Hermenegildo, a “Parábola do Publicano e do Fariseu” transformou-se em:
– “A ‘História’ do ‘Fiscá’ e do ‘São-cristão’”* (sacristão).

NOTA: Este texto é uma porção de uma série sobre contextualização, compartilhada no 5o Encontro da SETE/NE (Sociedade dos Estudantes de Teologia Evangélica)em Fortaleza-CE, pelo seu autor, Pr. Marcos Monteiro.

Transcrito pelo Rev.Laudemiro Pereira de Barros

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