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sexta-feira, 6 de março de 2009

QUE SIGNIFICA SER CRENTE?


Esta pergunta é muito importante para quantos desejam fazer sua pública profissão de fé.

A palavra crente significa aquele que crê. Ser crente significa ser discípulo de Jesus. Nossa vida é que vai mostrar ao mundo se realmente somos discípulos de Jesus. Nossas palavras só terão valor se confirmarmos nossos atos como cristãos genuínos. O Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos mostraram com c1areza que há dois aspectos inseparáveis na vida cristã: a apreensão da sã doutrina e a prática dessa doutrina. O Sermão do Monte e a Epístola de Paulo aos Ro:manos são os melhores exemplos dessa verdade. Cristão é alguém que crê e ex¬pressa sua fé por meio de suas palavras e de seus atos. As palavras do cristão devem achar concretização em seus atos. O cristão não pode separar a vida da doutrina. A doutrina é a formulação intelectual que a igreja faz para descrever a experiência viva da fé. A dou¬trina não pode substituir a vida cristã. O cristão não pode abrir mão da sã doutrina. “Atente bem para sua própria vida e para a doutrina” (1Tm 4.16)

1. Ser crente é viver a vida cristã
Tendo como exemplo o Senhor Jesus Cristo, e como orientador o Espírito Santo, o crente pode e deve ser imitador de Deus como filho amado, e andar em amor, como fez Cristo (Ef 5.1, 2). Não pode¬mos seguir o exemplo de Cristo confiados em nossa própria “força de vontade”. Sem o auxílio do Espírito Santo é impossível ser imitador de Deus. Sem o auxílio do Espírito seremos meros moralistas, não cristãos.

2. Ser crente é relacionar-se com Cristo, com sua Igreja e com o mundo

Note bem: relacionar-se com Cristo, mediante a fé, e relacionar-se com a Igreja mediante o amor que une a todos os que crêem em Cristo, tornando-os responsáveis diante do mundo. Do modo como Deus enviou seu Filho ao mundo, assim, em amor, somos enviados como instrumentos de Deus para a salvação de todo aquele que crê e para aliviar os sofrimentos de todos os que padecem.

3. Ser crente é ser testemunha de Jesus

Como o crente pode ser testemunha de Jesus? Unicamente recebendo o poder do Espírito Santo. O próprio Cristo declarou a seus discípulos: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1.8). Dotado desse poder, o crente está capacitado para testemunhar. Testemunhar é comunicar às pessoas o amor de Deus revelado em Cristo e do qual temos experiência em nossas vidas.

Podemos apontar algumas qualidades do genuíno testemunho do crente:

3.1. É positivo. O crente deve ser conhecido mais pelo que faz do que pelo que não faz. Às vezes ouvimos pessoas dizerem: “Fulano não bebe, não fuma, não joga, não faz mal a ninguém ... por que ele ainda não é crente?” Adolfo Hitler também não bebia, não fumava, não se divertia com jogo de azar e não comia carne. No entanto, ele foi um dos mais monstruosos assassinos do Século XX. Não devemos avaliar a vida de um cristão pela soma das coisas que ele não faz. O cristão, naturalmente, deixa de fazer muitas coisas erradas e abandona os vícios, mas esse aspecto do testemunho não é o mais importante. Seu testemunho vai mais além. O testemunho do crente é positivo, isto é, se manifesta em ações e palavras construtivas e benéficas. O apóstolo Pedro deu um resumo magnífico da vida de Jesus, quando disse: “Ele andou por toda parte fazendo o bem” (At 10.36). Jesus foi conhecido por sua vida positiva de amor. Socorria os necessitados, curava os enfermos, ressuscitava os mortos, pregava, ensinava e no fim deu sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45). É nesse sentido que o cristão deve dar testemunho positivo, pois ele é servo de um Senhor que viveu positivamente.

3.2. É cristocêntrico. O cristão dá testemunho de Cristo. “Vocês serão minhas testemunhas”, foi o que Cristo determinou. Nosso testemunho deve apontar para pessoa de Cristo. Quando os apóstolos tiveram que escolher um substituto para Judas, a exigência para o ofício foi: “Porquanto, é necessário que escolhamos um dos homens que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, desde o batismo de João até o dia em que Jesus foi elevado dentre nós às alturas. É preciso que um deles seja conosco testemunha de sua ressurreição” (At 1.21, 22). Essa exigência foi estabelecida porque seu testemunho tinha como fundamento sua experiência com Cristo, para que o testemunho fosse cristocêntrico.

O crente dá testemunho com o fim de glorificar a Cristo, e não com o fim de receber honras e elogios dos homens; não para parecer moralmente superior aos demais homens. Seu testemunho não deve ser egocêntrico, e sim cristocêntrico.

3.3. É comunitário. Quer queira, quer não, quando o crente testemunha está dizendo ao mundo que ele pertence à comunidade daqueles que são discípulos de Cristo. Essa comunidade se chama Igreja. Portanto, o crente não dá testemunho isoladamente, isto é, sem estar relacionado com outros que possuem a mesma fé. Em qualquer parte onde ele esteja, deve lembrar que é parte do corpo de Cristo.

Depois de dizer tudo isso, concluímos que o crente deve cultivar a alegria, o espírito de boa vontade, a humildade, o cavalheirismo, e, acima de tudo, deve ter sempre nos lábios e no coração a mensagem do evangelho, para difundir no ambiente em que vive a alegria das boas-novas da salvação que Deus trouxe na pessoa de seu Filho Jesus Cristo. Porque, como dissemos no começo deste capítulo, o testemunho deve ser principalmente comunicado, não através de palavras, mas de atitudes que assumimos diante da sociedade humana e da vida. O crente deve odiar o pecado e condenar as injustiças, porém deve amar a pessoa do pecador, e estar sempre pronto a amparar todo aquele que sofre fome, sede, nudez, prisões, doenças e outros males desta vida, e a ver nele a pessoa de Jesus Cristo, e a ouvir dele, no último dia, aquelas memoráveis palavras: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum de meus menores irmãos, a mim o fizeram” (Mt 25.40) .

Questionário

1. Que significa a palavra crente?
2. Quais são os dois aspectos inseparáveis da vida cristã?
3. Como o crente deve viver a vida cristã?
4. Com quem o crente se relaciona?
5. Que é testemunhar?
6. Por que o testemunho do crente deve ser positivo?
7. Por que o testemunho do crente deve ser cristocêntrico?
8. Por que o testemunho do crente deve ser comunitário?
9. O crente deve ser uma pessoa “do contra”?
10. Você crê ser um crente no Senhor Jesus?

quinta-feira, 5 de março de 2009

O PROBLEMA DO ALCOOLISMO - Pv.23:19-35


Nenhuma droga mata mais do que o álcool. O consumo de bebida alcoólica é responsável pela maior parte de mortes não-naturais, homicídios e aci¬dentes no Brasil. Aqui está um dos grandes problemas que precisam ser encarados de frente pela igreja. Infelizmente, há aqueles que são fracos na fé e acabam caindo em tentação. É quase impossível encontrar uma pessoa ou família que nunca se deparou com o problema do alcoolismo.
Por alcoolismo, entende-se o descontrole ou excesso no consumo de bebidas alcoólicas. O alcoólatra é aquela pessoa que não sabe estabelecer um limite e não usou o autocontrole, transformando-se num dependente. É aquele que não fica só no primeiro gole.

BREVE ANÁLISE DO PROBLEMA
O Dr. Hélio Hiller de Mesquita (neurologista), disse que "o alcoolismo foi definido como doença crônica e um distúrbio de comportamento, caracterizado, em ambos os contextos, por episódios repetidos de intoxicação ou bebedeiras, a ponto de interferir na saúde do indivíduo e no seu desempenho no trabalho, em casa e na comunidade. Em termos farmacologicos, muitos estudiosos acreditam ser o alcoolismo uma forma de vício à droga". Além disso, parece que há dois tipos de bebedores: O primeiro, é constituído por pessoas que bebem por prazer ou socialmente. O segundo, é composto por pessoas com impotência frente ao álcool. Após o primeiro gole, não conseguem mais parar. Esse é o alcoólatra verdadeiro, o qual este estudo focaliza (Pv 23.35 e Is 5.11,12).
Estudiosos têm apontado várias causas para a doença do alcoolismo: herança familiar (hereditariedade), influências sociais negativas, distúrbio da própria função endrócrina, predisposição constitucional subjacente, fator cultural (hábito de ingerir álcool inserido na cultura), crises existenciais etc.
O cristão não está livre de ser tentado a fazer uso de bebidas alcoólicas. São os com¬promissos sociais, os amigos, o bar perto de casa, a vontade de "afogar" os problemas, o desejo de vencer a timidez, a influência do meio e das propagandas, e muito mais. Infelizmente, alguns acabam caindo nessa tentação e se transformam em alcoólatras.
Há aqueles que desejam vir para a igreja, mas não sabem como vencer a barreira do alcoolismo. São os que não possuem forças para vencer o vício. Por isso, a igreja necessita agir, de modo terapêutico, tentando curar e libertar esses dependentes. Eis o grande desafio!

TÓPICOS PARA REFLEXÃO

1. ALCOOLISMO E DOMÍNIO PRÓPRIO
Bebidas, alimentos e dinheiro, não são problemas em si mesmos. O problema reside nas pessoas que fazem uso deles de modo descontrolado, indisciplinado, incorreto, deixando de revelar o fruto do Espírito, ou seja, o domínio próprio (Gl 5.23; Fp 4.5). Na realidade, o problema reside mesmo é no próprio homem, pois a Bíblia ensina que, aquilo que é recebido com "ações de graças não é pecado" (Cl 3.17); e "todas as coisas, na verdade, são limpas" (Rm 4.20).
Paulo disse: "Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (I Co 10.31). Quando o domínio próprio está presente, tudo é feito para a glória de Deus.
O que se escuta com freqüência dos alcoó¬latras, é que eles não possuem forças para largar o vício e nem domínio para deixar de continuar ingerindo álcool. A maioria se torna alcoólatra por causa da falta de domínio pró-prio, ou seja, não se dominam diante das oportunidades que surgem. Vale a pena citar aqui o exemplo de Daniel, que "resolveu firmemente não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia" (Dn 1.8).

2. ALCOOLISMO E SEUS PROBLEMAS
No texto básico de Provérbios 23.19 a 35, estão alguns dos sérios problemas causados pelo alcoolismo. O ver-sículo 21 fala de "pobreza e sonolência". O versículo 29 fala de "pesares, rixas, queixas, feridas, olhos vermelhos". Os versículos 32 a 35 falam de "final doloroso, olhos que vêem cousas estranhas, coração repleto de perversidade, corpos anestesia-dos". Realmente, os problemas gerados pelo alcoolismo são terríveis.
Uma pesquisa mostra algumas destas conseqüências: mais acidentes de trabalho, mais acidentes de trânsito, mais separação na família, mais homicídios, mais menores abandonados, mais cirrose hepática, mais hepatite alcooólica, mais gastrite aguda e crônica, mais hipertensão arterial, mais confusão mental e alucinações, mais apatia, agitação e estado de coma, mais dores e crises convulsivas, mais impotência sexual, mais perda da capacidade mental, mais câncer (de boca e esôfago), mais alterações da personalidade, mais perda do autodomínio, mais violência, mais distúrbios cardiovasculares, mais queda na sensibilidade visual, mais redução da percepção das distâncias e da velocidade (reflexo).
De maneira interessante, é possível apre¬sentar essas conseqüências, através da gíria policial, quando o álcool provoca três momen¬tos distintos, batizados com o nome de alguns bichos: a fase do macaco - é quando a pessoa começa a beber e está alegre; a o do leão - é quando a bebida o deixa valente; a do porco - é quando passa mal ou dorme. As brigas começam quando o macaco chega ao bar e encontra a valentia do leão. Daí o surgimento de inimizades, incidentes e até mortes.
Os problemas causados pelo alcoolismo são tremendos e de proporções quase incontroláveis. Diante dessa terrível realidade, é bom que se diga que o álcool não é alimento; e, o verdadeiro brinde à saúde, é não desenvolver o hábito de consumir bebidas alcoólicas.

3. A RECUPERAÇÃO DO ALCOÓLATRA
Como já foi apresentado, o alcoólatra é uma pessoa doente, e não um bandido ou marginal. Ele precisa de ajuda e compreensão, não de des¬caso ou indiferença.
Há situações em que as pessoas envolvidas com dependentes do álcool chegam a per der a paciência; e, depois de tentar ajudar, de várias formas, não agüentam mais. São aquelas que dizem que já fizeram de tudo para ajudar, mas não conseguiram êxito. Em casos mais extremos, o dependente é até expulso de casa. Mas, é preciso ter esperança de que Deus pode libertar, pois ele é o Deus dos milagres, dos impossíveis (Lc 1.37).
O alcoólatra é uma criatura de Deus, é uma pessoa amiga. Aqui, portanto, reside o grande desafio para a igreja e todos os cristãos. Este desafio é grande, porque, na maioria das vezes, os alcoólatras negam que estejam doentes e que necessitam de tratamento. 0 que se pode fazer para auxiliar os alcoólatras? Vejamos:
Sendo o alcoolismo uma doença, o dependente precisa passar por um processo de desintoxicação, geralmente, com o paciente internado. Um médico, uma clínica, um hospital, aplicação de medicamentos, devem ser utilizados neste processo. É preciso "limpar" o organismo.
Mas, o alcoólatra precisa ser conscientizado dos malefícios causados pelo álcool; e precisa querer parar de beber. Só haverá libertação, cura, com a abstinência total do álcool. Só há um modo de deter essa doença: parar de beber.
Em quase todas as cidades existe o AA (Associação dos Alcoólicos Anônimos). Esse é um grupo que desenvolve uma terapia de grupo muito interessante e que tem sido útil para a recuperação de viciados. Seu preceito fundamental é: "Evite o primeiro gole". Esse grupo precisa, inclusive, receber mais apoio das igrejas, pois está aberto às colaborações do povo de Deus.
A recuperação de um alcoólatra se dá com a sua conversão genuína a Cristo. É o tratamento espiritual que deve ser feito juntamente com o tratamento médico. O alcoolismo não é uma condição condizente com a vida do cristão. Jesus é o libertador e é aquele que dá nova vida (Jo 8.32 e 36). É missão da igreja apresentar a mensagem de libertação na pessoa de Jesus.
O pastor e psicólogo Carlos Roberto Barcelos Dias oferece algumas orientações à família do alcoólatra:
• A família não conseguirá controlar o beber de seu alcoólatra - A maior causa da exaustão familiar no lidar com o alcoolismo é a tentativa frustrante, ao extremo, de controlar os comportamentos inconvenientes do alcoólatra. O alcoólatra perdeu o controle sobre sua vida, mas esse controle não será retomado através do con¬trole de outras pessoas sobre ele;
• A família não é culpada de o alcoólatra beber compulsivamente - Geralmente, a espo¬sa acha que não cuidou bem de seu marido; os filhos acham que não foram bons o suficiente; o pai, acha que o castigo que deu ao filho é a razão de ele beber, e assim sucessivamente. Ninguém é responsável pelo alcoolismo, a não ser o próprio alcoólatra que o desenvolveu, a partir da decisão de tomar o primeiro gole em sua vida;
• Não há cura para o alcoolismo, há recuperação - Constantemente, a família procura ajuda, levando consigo uma fantasia da cura. No entanto, alcoolismo não tem cura, no sentido de que o alcoólatra se veja livre da compulsão de beber para sempre. A característica marcante do alcoolismo é a perda do controle sobre o beber. Não existe, portanto, o ex-alcoólatra. O que existe é o alcoólatra, ex-bêbado. Este aprendeu a viver sem o recurso da bebida, e deve evitar o primeiro gole, um dia de cada vez.

Extraído - Revista Didaquê - "Encarando a Vida de Frente" - Lição 6

O CRISTÃO E AS BEBIDAS – Prov.23:29-35


INTRODUÇÃO: O álcool, este ladrão com autorização oficial, mata muitos milhares em nossas estradas a cada ano; incita as pessoas ao assassinato, ao suicídio e ao homicídio; ele coloca outras pessoas atrás das grades, como maníacos delirantes. Shakespeare, assombrado, exclamou em seus dias: “Ó Deus! Como os homens podem colocar um inimigo em suas bocas para roubar-lhes o cérebro?...”.
Vivermos em uma época em que, apesar da grande luta contra os vícios das bebidas, este vai atingindo mais e mais pessoas, envolvendo-as, escravizando-as e tornando-as dependentes, conduzindo-as a verdadeira tragédias, quando não lhes rouba precocemente a vida.
Nesta estudo sobre O Cristão e as Bebidas, queremos convidá-lo a fazer uma séria reflexão a respeito do problema da bebida alcoólica, com o objetivo de levá-lo, se ainda não o fez, a tornar-se um forte aliado na ba-talha contra esse grande mal.

I – CONHECER PARA COMBATER:
As bebidas alcoólicas se constituem em um dos maiores males do nosso século; porém, poucos se dão ao trabalho de conhecer as causas desse mal e como esse líquido tão útil em determinadas áreas da atividade humana, tem se constituído numa desgraça para milhares de pessoas no mundo todo.
É provável que a palavra álcool tenha se originado do árabe alghole, cujo significado é “espírito maligno”, possivelmente devido a situação deprimente a que é levado aquele que se deixa dominar pelas bebidas alcoólicas.
O álcool é obtido através da fermentação dos sumos açucarados de origem vegetal, a qual é provocada por certas bactérias saprófitas ou leveduras (fungos) que transformam a glicose em álcool e gás carbônico. Ob-tém-se também o álcool a partir do amido de batatas, mandiocas e cereais, os quais, transformados em glicose, são submetidos à fermentação. Veja a seguir uma lista das principais bebidas, seu preparo e teor alcoólico, divi-didas em duas partes: 1- bebidas alcoólicas fermentadas; 2 – bebidas alcoólicas destiladas.
1 – Bebidas Alcoólicas Fermentadas:
A) Vinho: Obtido pela fermentação natural do suco de uva. Teor alcoólico, 7o a 12o G. L. No Brasil, é de 2 litros a taxa per capita de consumo anual.
B) Vinhos Compostos: Obtidos pela mistura de ervas amargas ao vinho. Teor alcoólico, 15o a 18o G.L
C) Champanha ou Champanhe: Obtida pela adição de açúcar após a fermentação, o que provoca nova fermentação após o engarrafamento. Teor alcoólico, 12o G. L.
D) Cerveja: Fabricada a cerca de 3.000 anos a.C., na Babilônia e Egito. Teor alcoólico, 3o a 4,5o G. L.
E) Chope: Obtido pela gaseificação da cerveja fresca. Munique se destaca no consumo mundial de chope, com 366 litros per capita. Destaca-se também como sendo a cidade de maior incidência de câncer do a-parelho digestivo e de cirrose hepática.
2 – Bebidas Alcoólicas Destiladas: Obtidas pela destilação do líquido alcoólico fermentado, o que eleva o seu teor alcoólico, tornando-as extremamente maléficas.
A) Aguardente de cana: Resultado da fermentação e destilação do caldo de cana de açúcar. Teor al-coólico, 40o a 54o G. L. No Brasil, consome-se mais de 1 litro para cada grupo de 10 pessoas, anualmente. O consumo de leite é de 1 litro para cada grupo de 10 pessoas.
B) Uisque ou Whisky: Preparado com amido de cereais: milho, centeio, aveia, cevada, e é originado da Escócia. Teor alcoólico, 40o a 50o G. L.
C) Aperitivos Amargos: Usados para “abrir o apetite” – são extremamente nocivos, pelas seguintes razões: 1) são preparados com álcool de industria; 2) são ingeridos com o estômago vazio; 3) Possuem essências e tinturas muito toxicas.

II – EFEITOS DO ÁLCOOL NO ORGANISMO HUMANO:
Absorvido pelo intestino delgado, o álcool passa para o fígado de onde penetra na corrente sangüínea, a-tingindo seu efeito máximo após uma hora, e perdurando por várias horas. Cerca de 10% do álcool ingerido são eliminados pelos rins; mas, os 9o% restantes permanecem por várias horas, sendo lentamente oxidados pelo or-ganismo. Os malefícios do álcool se fazem sentir.
A) Na boca: Sensação de queimadura;
B) No Estômago: irritação da mucosa gástrica, provocando gastrite e úlcera;
C) No Fígado: órgão encarregado de eliminar substâncias tóxicas do organismo – há um esforço exces-sivo, provocando alterações funcionais e lesões graves, como hepatite aguda, cirrose hepática e até ascite (bar-riga d’água);
D) No Pâncreas: órgão que produz o suco pancreático e a insulina – o álcool pode provocar a pancreatite aguda;
E) Nos Rins: pode provocar a nefrite (inflamação) crônica;
F) No aparelho genital: pode haver a perda de certas características sexuais, além de afetar a descen-dência, podendo nascer os filhos com debilidade mental, epilepsia e imbecilidade (estado de debilidade intelectual intensa);
G) Sobre o Sistema Nervoso Central: Inibe as funções do cérebro, afeta a memória e, às vezes, o juízo. Os órgãos do sentido sofrem perturbações. E sobre o sistema nervoso periférico, ocasiona inflamação dos ner-vos, fraqueza muscular nas pernas e braços, e até a paralisia;
H) Sobre o Coração: Pode ocasionar alterações no ritmo, bloqueios, e até parada cardíaca. Só pelos seus efeitos sobre o organismo, o álcool não deveria jamais ser ingerido. Mas, veja-se:

III – O QUE DIZ A BÍBLIA SOBRE A BEBIDA ALCOÓLICA:
Leia as seguintes passagens bíblicas antes de prosseguir o estudo: Is.5:11,22; 22:13,14; Rm.13:12-14; Gl.5:19-21; Ef.5:18-21; Pv.23:19,20,21,29-35.
O vinho era bebida importante na mesa dos filhos de Israel. É muitas vezes referido a Bíblia em conexão, tanto do Velho como do Novo Testamentos. Porém, em suas páginas há constantes advertências contra os peri-gos de seu uso. Observe-se atentamente o que dizem os seguintes textos a esse respeito:
Ecl.10:17 – Feliz a nação onde os príncipes se reúnem para se alimentar e não para beber vinho; Is.5:11, 22 – severas conseqüências apresentadas com a expressão “ai”; Pv.23:20,21 – um apelo incisivo, quase um clamor; 1Co.5:11 – “...não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for ...beberrão...”; a idéia é a de não estar junto, não participar. Texto bíblico, muitas vezes tido como ditado popular, “comamos e bebamos, que a-manhã morreremos”. Veja o que diz Is.22:13 e 14 – “... esta maldade não será perdoada, até que morrais, diz o Senhor...”. Andar dignamente a que Paulo exorta os romanos, excluía as orgias e bebedices. Rm.13:13 – estar cheio do Espírito Santo é incompatível com o estar cheio de vinho (Ef.5:18). Para Pedro, a prática da bebedice era própria dos gentios, dos que não tinham Deus na vida (1Pe.4:15). Paulo enumera, entre os frutos da carne, a bebedice (Gl.5:19-21) e classifica, entre os que não herdarão a graça da vida eterna, os beberrões (1Co.6:10).
Se, por um lado, o uso do vinho era generalizado nos tempos bíblicos, por outro lado, a Bíblia mostra os perigos que cercam o uso das bebidas alcoólicas. Se você pode dizer: “A Bíblia não condena a embriagues, beber só um pouquinho não faz mal, o próprio apóstolo Paulo aconselha Timóteo a beber um pouco de vi-nho”(1Tm.5:16), permita-nos dizer-lhe duas coisas: 1) É com um pouquinho só que se iniciam as grandes des-graças na vida do homem. 2) Deus já criou o nosso organismo com a capacidade maravilhosa de retirar dos ali-mentos que ingerimos a quantidade de álcool de que necessitamos. Logo, toda gota de álcool que tomarmos será excedente.
CONCLUSÃO:
Insistimos com o amável irmão no sentido de que, do ponto de vista bíblico, não há exigência nenhuma para abstinência total. Porém, com o conhecimento que se tem hoje dos malefícios do álcool, e diante das adver-tências bíblicas sobre os perigos de seu uso, creio que o crente sincero não encontra nenhum motivo para tomar sequer uma “dose” de bebida alcoólica. Leia atentamente, Pv.23:19-35.

ÁLCOOL E PIEDADE



Álcool é assunto controvertido, como a maioria das questões sociais e éticas de nosso tempo. A igreja cristã tem dois pontos de vista básicos sobre o álcool: um é a abstinência, e o outro, a temperança ou moderação.
Que a Bíblia ensina? Nosso texto de Provérbios nos diz que o vinho dá falsa coragem; que a bebida forte provoca rixas; e que os homens são idiotas deixando-se dominar por elas. É difícil perceber, a partir do texto, qual a posição da Bíblia. Obviamente a Bíblia é contra a embriaguez, mas esta passagem não nos diz se a Bíblia exige total abstinência ou moderação.
Há mais duas passagens sobre o uso do álcool, no livro de Provérbios. O capítulo 23 é realmente clássico:
"Quem tem o coração cheio de angústias e tristezas? Quem está sempre discutindo e brigando? Quem é o homem de olhos inflamados e com muitas feridas? É aquele que gasta suas horas nos bares, provando novas misturas de bebidas. Não se deixe enganar pelo brilho e suave sabor do vinho forte. No fim, picará como serpente venenosa, fere como víbora. Você terá alucinações e delírios, chegando a dizer coisas loucas e tontas que depois de passado o efeito, deixarão você bastante envergonhado! Você vai cambalear como um marinheiro, quando o navio balança em alto mar, procurando agarrar-se a algum mastro. E depois você dirá: 'Nem percebi quando me deram uma surra. . . Vou voltar a beber mais um pouco!" (Pv. 23:29-31, SPV).
A outra porção está em Provérbios 31:
"Não fica bem para reis, Lemuel, beber vinho ou bebida forte. Pois, se bebem, podem se esquecer dos seus deveres, e não saberão fazer justiça para os oprimidos. As bebidas fortes são para os homens doentes que estão prestes a morrer, e o vinho é para os que estão profundamente desiludidos. Eles que bebam para se esquecerem da sua pobreza e profunda miséria" (Pv. 31:4-7, SPV).
O escritor desta passagem reconheceu, há milhares de anos, o que as autoridades médicas dizem atualmente: o álcool é uma droga que perturba a mente, mas que não a torna totalmente ruim. Pode haver uso legítimo para ele. Pode ser administrado exatamente como se administra a morfina ou outras drogas analgésicas. Contudo, quanto mais responsabilidade um homem tem, mais cuidadoso deveria ser no uso das bebidas alcoólicas.
Encontramos uma tradição dupla no Antigo Testamento. Pessoas que queriam fazer os votos especiais do nazireado, conforme encontramos em Números 6, prometiam não cortar o cabelo e não beber vinho ou suco de uvas, nem mesmo comer uvas ou passas ou qualquer outro produto da videira. Esta abstinência voluntária demonstra que sempre houve, na tradição do Antigo Testamento, os que se abstiveram completamente das bebidas alcoólicas. Mas precisamos ser honestos com os dados — o Antigo Testamento não impõe em lugar nenhum este padrão a todas as pessoas.
Mas e o Novo Testamento? Vemos de certo modo o mesmo problema. Pessoas que crêem fortemente na abstinência tentam provar que o vinho que Jesus bebeu era apenas suco de uva. Mas não pode argumentar deste modo quem quiser realmente ser honesto. Não havia refrigeração. Suco de uvas comum não resistiria; com o tempo, ele se transformaria naturalmente em vinho.
Mateus registra incidente que lança alguma luz sobre o assunto. João Batista era abstinente, mas parece que Jesus não era. "Porque João Batista não bebe nem vinho e muitas vezes fica sem comer, então vocês dizem: 'Está louco'. E Eu, o Messias, tomo parte em festas e bebo, e vocês se queixam de que Eu sou 'um comilão e bebedor'. . ." (Mt. 11:18,19, NTV). Temos de reconhecer que no Novo Testamento estão presentes as duas tradições, a moderação e a abstinência.
Paulo disse a Timóteo que devia beber um pouquinho de vinho para o seu estômago. (Veja 1 Tm. 5:23.) Acho que Timóteo era abstinente. Ele achava que bebidas alcoólicas não deveriam fazer parte de suas práticas, por ser um ancião da igreja. Por isso Paulo precisou dizer-lhe: "Se você está doente e precisa dela, beba-a." Indica novamente que há certa ambigüidade na Bíblia. Há uma forte tradição de abstinência no Antigo Testamento e no Novo Testamento, mas não há nenhuma declaração categórica sobre o assunto.
Então, você pergunta, de onde surgiram todos os problemas sobre a questão da abstinência? Por que existem as sociedades de temperança? Onde a igreja cristã obteve a força emocional nos anos 20, para votar o “Volstead Act” (Lei Seca), que baniu as bebidas alcoólicas dos Estados Unidos?
Para responder, temos de estudar os efeitos do alcoolismo. Temos de observar as tragédias induzidas pelo álcool. Uma coisa que devemos notar é o efeito do álcool sobre certas civilizações.
Conforme as civilizações desabam ou passam por transições, o perigo do alcoolismo aparece. Numa estável sociedade agrária, há índice baixo de alcoolismo. Em sociedades que entram em colisão com a transição, o índice do alcoolismo dispara.
Veja o que a "aguardente" fez com os índios americanos. A colisão entre a civilização tribal com a tecnologia avançada do Oeste levou à desintegração da cultura dos índios. Na tensão desta colisão, o alcoolismo se tornou quase endêmico em toda a população índia. Assim tivemos a imposição de que o álcool não deveria ser vendido aos índios, porque os estava destruindo.
Um efeito semelhante também foi observado pelos missionários do Havaí. Os missionários puritanos, que foram enviados da Nova Inglaterra em 1820 e anos subseqüentes, recebiam, além dos salários, certos suprimentos. Incluíam tantos litros de uísque em barris. Podiam negociá-lo; fazia parte do estável meio ambiente da Nova Inglaterra. Quando chegaram ao Havaí descobriram que tinham sido roubados pelos baleeiros e o alcoolismo irrompeu na sociedade havaiana. Entre 1840 e 1850, a maior batalha que os missionários tiveram de enfrentar foi a destruição de toda a população, pelo alcoolismo.
Por isso, adotaram regra pela qual os cristãos havaianos tinham de abster-se do álcool. Mas os missionários continuaram recebendo sua porçãozinha de uísque da Nova Inglaterra. Finalmente, começaram a preocupar-se com a inconsistência. Estavam também sob o impacto do grande grupo metodista — e os metodistas eram a espinha dorsal do movimento temperante. Mais ou menos em 1870, a porção de uísque dos missionários foi eliminada e eles já não puderam usar bebidas alcoólicas.
Na época da Revolução Industrial, embriagar-se era coisa que só gente rica podia custear. Mas com a descoberta de processo de destilação mais barato, qualquer operário podia embriagar-se por alguns centavos. E assim na transição cultural da Revolução Industrial, o alcoolismo, tanto na Europa como na América, subiu às alturas. A vida familiar começou a desintegrar-se. Parte do reavivamento religioso daquele tempo era lutar contra o "Demônio do Rum". A tradição da abstinência tornou-se dominante na herança da América Protestante.
Os cristãos tomaram consciência de que, se quisessem cristianizar a América, tinham de eliminar o álcool completamente do cenário. O triunfo final do império protestante americano foi votar a "Lei Seca", introduzindo, assim, a era da proibição.
Mas a proibição tornou-se cada vez menos popular e irrealizável. Em 1932 houve plebiscito, repelindo a lei. Desde então temos nadado em nossas bebedeiras. Realmente não nos temos comportado como cristãos que dizemos ser.
Quando olho para o presente estágio da igreja, com sua tradição dupla de abstinência e moderação, descubro que tenho de criticar ambas.
A posição abstinente tende a colocar a abstinência total numa categoria de verdade absoluta. Aqueles que assim opinam rapidamente presumem que beber é embriagar-se — e não é verdade. Isto tem conduzido a uma espécie de legalismo, através do qual julgamos os outros cristãos. Temos de traçar a linha — mas como traçar uma linha que colocaria nosso Senhor Jesus fora da igreja?
A tradição da temperança ou moderação, por outro lado, é ingênua. Estas pessoas presumem que ser cristão concede-lhes, não sei como, capacidade moral perfeita, de modo que o álcool não se torna problema. Muitas pessoas que nasceram em família cristã de duas ou três gerações simplesmente não experimentaram a devastação provocada pelo álcool que outras tiveram. Não percebem como o problema do álcool pode tornar-se sério na vida de uma pessoa.
Nosso tempo é de mudanças sociais sem paralelos — são tão grandes em termos de mudanças sociais, como qualquer uma das colisões culturais ocorridas no passado. A metade das camas no Hospital Geral de Los Angeles estão ocupadas por pessoas internadas, devido ao abuso de drogas ou álcool. Este é um dos maiores problemas de nosso país. O álcool é droga que perturba a mente.
De acordo com o Serviço de Saúde Pública dos E.U.A., há uma estimativa de 9 milhões e meio de alcoólatras na América. (Define-se alcoólatra como alguém para o qual o uso das bebidas alcoólicas tem produzido sérias complicações na saúde, vida familiar ou vocacional.) Nove milhões e meio de alcoólatras em 100 milhões de pessoas que bebem (numa população de 200 milhões de americanos)! Isso significa que entre nove a dez por cento daqueles que bebem nos Estados Unidos estão sendo destruídos pelas bebidas alcoólicas. Você pode ver por que o álcool deveria ser classificado como droga perigosa. O governo federal não deveria conceder licença para o uso ilimitado de uma droga que atinge tão altos riscos.
O Conselho de Segurança Nacional relata que de mais de 50.000 mortes que acontecem nos E.U.A. por ano, 25.000 dessas fatalidades relacionam-se com acidentes devidos ao uso de bebidas. Por que há tão pouca preocupação por parte do público para com esta tragédia que mata mais do que todas as nossas guerras já mataram ou aleijaram?
O Professor John Kaplan, em seu livro "Marijuana: The New Prohibition" (Maconha: A Nova Proibição), destaca uma série de estudos feitos por médicos peritos que indicam que entre quarenta a oitenta por cento de todos os homicídios se relacionam com bebidas alcoólicas ("Marijuana: The New Prohibiton", John Kaplan, págs. 276-282). O álcool está diretamente relacionado com a incidência do crime.
Estamos vivendo na crise da sociedade das drogas; todos nós ficamos impressionados ao ver a destruição dos jovens. Mas o fato é que o uso de drogas pelos jovens nem sequer chega perto da gravidade do problema de saúde nacional que é o alcoolismo. Não estou dizendo que as drogas são melhores do que a bebida — mas que a bebida é usada em quantidade bem maior do que as drogas.
Um dos mais fortes argumentos usados entre jovens, contra o uso da maconha é que leva para o uso de drogas mais fortes. Mas um estudo interessante publicado em "The Medicai World News" (Notícias Médi¬cas Mundiais) em 3 de dezembro de 1971, diz que o álcool, não a maconha, é a droga usada por alta porcentagem de pessoas que mais tarde se tornaram viciadas em heroína. O abuso dessa substância é considerado uma das causas principais do fracasso da manutenção da Methadona.
Numa série de estudos, pesquisadores concluíram que, em cerca da metade de nossos viciados em heroína, se houvera intervenção em estágio anterior, o diagnóstico teria sido alcoolismo ou abuso do álcool, em lugar de vício de drogas. O fenômeno tem implicações para a prevenção do uso da heroína. A essência do estudo é que o álcool está mais firmemente estabelecido como estrada para o vício da heroína do que a maconha. Temos tentado dizer aos nossos jovens que não experimentem as drogas, porque podem acabar viciados em heroína; mas deveríamos analisar o significado do uso do álcool.
O Professor Kaplan, em seu livro, diz que a maconha e o álcool são drogas perigosas. "Deixamos que pessoas com mais de vinte e um anos de idade usem álcool, portanto vamos fazer o mesmo com a maconha" ("Marijuana", Kaplan, págs. 357, 358). Mas isto não resolveria nada. Eu e você sabemos que os menores não têm problemas em obter bebidas alcoólicas, se realmente as desejarem; do mesmo modo, não teriam dificuldades em obter drogas que fossem "só para adultos".
Que podemos sugerir como perspectiva cristã em relação às bebidas alcoólicas? Dou-lhe minha resposta, reconhecendo que há duas posições na Bíblia e na Igreja Cristã. À luz da atual tensão, cheguei à conclu¬são de que a abstinência seria a estrada para mim. O alcoolismo não acontece simplesmente — relaciona-se com a estrutura emocional da personalidade. Uma pessoa pode beber "sem problemas" durante trinta anos e, então, enfrentar alguma enfermidade ou crise no emprego e tornar-se alcoólatra. Desenvolvemos nova gíria para descrever isto: o "alcoólatra sóbrio" é a pessoa que se tornará um alcoólatra mais cedo ou mais tarde, se continuar usando álcool. Considerando que tenho dois avós que foram alcoólatras antes de converterem-se, tenho todos os motivos para crer que poderia tornar-me um verdadeiro alcoólatra com muita facilidade. Poderia muito bem ser um "alcoólatra sóbrio". Não quero arriscar-me a descobri-lo!
Meu segundo motivo para a abstinência relaciona-se com minha responsabilidade para com meu irmão cristão. Paulo discute o fato de que, enquanto temos liberdade sendo cristãos, há setores nos quais deveríamos voluntariamente limitar-nos, por causa do efeito possível em nosso irmão. Se através do meu exemplo e estímulo um irmão é levado para o alcoo¬lismo, então o amor cristão diz que eu não deveria dar tal exemplo. O perigo de ser um "alcoólatra sóbrio" é de um em dez. Tenho dois filhos, portanto há possibilidade, de vinte por cento, de um de meus filhos envolver-se com a tragédia relacionada à bebida. Na qualidade de pastor, tenho centenas de pessoas em meu rebanho. Um em dez significaria que eu estaria expondo ao perigo dezenas de minhas ovelhas em nome de minha liberdade cristã. Eu não quero essa responsabilidade. Penso como Billy Sunday, que disse: "Combaterei as bebidas alcoólicas até que o Inferno se congele; e então comprarei um par de patins e lutarei contra ele sobre o gelo."
Tendo feito tal declaração, apresso-me a acrescentar que não me estou agora apoiando nas Sagradas Escrituras. Tenho o direito de falar sobre este assunto, ainda que a Bíblia não fale dele especificamente. Paulo, você se lembra, acautelou as pessoas a não se casarem por causa da tensão da época. O casamento foi instituído por Deus, mas Paulo indicou que pode haver ocasiões em que, no curso da história, a revolução social teria de levar algumas pessoas a privar-se do privilégio da vida em família. A Bíblia apresenta a idéia de que há ocasiões de crises, quando temos de restringir nossas atividades, a fim de enfrentar a situação na qual estamos vivendo.
A igreja já o fez antes. Você não pode encontrar um capítulo e um versículo no Livro Sagrado que lhe diga que a escravatura é um erro; mas não acho que a igreja tenha errado quanto à vontade de Deus quando, cento e trinta anos atrás, começou a pregar que a escravidão era falta de humanidade e que deveria ser abolida.
Por isso acho que hoje temos direito de falar sobre o álcool. Percebo que podemos ser criticados porque em nossas igrejas evangélicas tradicionais as únicas questões sociais que sempre atacamos são o divórcio, o álcool, a prostituição e o aborto. Podemos ser justamente acusados de negligenciar questões como a pobreza, o racismo e a injustiça. Devemos também cuidar desses assuntos, para não nos limitarmos simplesmente a defender em especial os tabus protestantes.
Finalmente, vamos lembrar-nos que a igreja não pode legislar sobre os seus membros no setor da prática pessoal referente ao álcool. Não podemos transformar isto em parte da lei da igreja. Seria ultrapassar os direitos que as Escrituras nos concedem. Alguns cristãos, por causa de sua criação e tradição, usam vinho e outras bebidas alcoólicas com moderação. Eu e a Igreja pecaríamos contra Deus, se insistíssemos que essas pessoas são menos cristãs porque o fazem. Se em seus corações, diante de Deus, e considerando os dados que têm à disposição, chegarem a conclusão diferente da minha, sou obrigado por lei a aceitar seu padrão diferente. Não posso impor nem uma sanção escrita nem uma sanção de atitude contra esses irmãos. Protesto tão fortemente contra a atitude da condenação do irmão porque tem opinião divergente, como protesto contra o álcool em primeiro lugar.
A igreja é guardiã da Palavra de Deus, e nós procuramos interpretar a vontade de Deus quanto aos assuntos relacionados com nossa consciência. Mas a tarefa fundamental da igreja não é forçar virtudes sobre as pessoas, através de atos de legislação ou proibição. Às vezes temos de ensinar lei e ética, mas a essência da igreja é proclamar a graça de Deus. Não cumprimos nossa missão, até que enfatizemos a graça de Deus mais fortemente do que a Lei de Deus.
Uma das maiores tragédias da igreja é que, às vezes, ela tem atacado o alcoolismo de tal maneira que geralmente não tem estendido a mão da compaixão e da misericórdia à pessoa que está perdida e presa na armadilha de sua iniqüidade. Isso pode dizer-se das drogas, ou do abuso do sexo, ou qualquer outra coisa. O tom estridente da ira da igreja tem calado a voz da compaixão, de modo que muitos que se encontram com problemas têm dito: "A igreja é o último lugar que eu desejo procurar. Eu não preciso ser açoitado mais ainda — meu pecado já me açoitou bastante. Eu preciso das palavras de Deus que dizem que há perdão em Jesus Cristo e que há graça para vencer o meu problema." Quero ser lembrado não como o homem que veio e apontou o dedo a alguém dizendo: "Você está errado!" mas como o homem que disse: "Eu percebo como você está desamparado. Eu tenho um amigo, Jesus Cristo. Ele pode perdoá-lo e curá-lo."

"Pai, ajuda-nos a orientar-nos pelas Sagradas Escrituras, a ter o cuidado de, com nossas emoções, como também com nossas palavras, não ultrapassar as Escrituras no julgamento de nosso próximo. Ajuda-nos a respeitar o direito de nosso companheiro cristão tomar suas próprias decisões. Mas leva-nos também a uma atitude cristã diante das trágicas crises sociais e pessoais que este problema produziu. Que nos mova quando tomarmos decisões relacionadas com nosso agir pessoal. Que aumente nossa dedicação na qualidade de ministros da reconciliação, que possamos chorar por aqueles que erram, levantar os que caem, e falar-lhes de Jesus, aquele que é poderoso para salvar. Em seu nome. Amém."

PAUL E. LARSEN
Extraído do Livro "Saiba Viver! - Provérbios" Cap.18 - Editora Vida

OS LIMITES DA LIBERDADE CRISTÃ - Sim, Não e Talvez no comportamento cristão - 1 Coríntio 8-10



A maioria dos cristãos não têm dificuldades para distinguir entre coisas que são realmente boas e coisas que são realmente más. Mas quando chegam esta larga e escorregadia terra-de-ninguém dos assuntos duvidosos, a maioria começa a coçar a cabeça.
Ir à igreja no domingo? Certo! Cometer adultério? Errado! São assuntos sem dúvidas. Geralmente não causam problemas — pelo menos não quanto a se são certos ou errados.
Mas — e ir ao cinema? Dançar? Fumar? Beber um pouquinho? Divertir-se no domingo? Acariciar a namorada? Jogar cartas? Jogar na loteria? O quadro muda do preto bem preto e do branco bem branco para vários graus de cinza. Em muitos casos cristãos, às vezes da mesma igreja, para não dizer de diferentes partes do país, não conseguem chegar a um acordo sobre se estes ou outros assuntos éticos semelhantes são atividades legítimas para um cristão.
Em Corinto não houve nenhuma discussão sobre ir ao cinema ou jogar cartas. Estas tentações ainda não existiam. Mas os coríntios tinham o mesmo tipo de problemas. De todas as coisas, a que mais causava discussões naquele tempo era — comer carne.
Para nós pode parecer estranho, mas uma das tentações mais sérias para um cristão do primeiro século em Corinto era adorar um ídolo. Ninguém duvidava de que adorar um ídolo era pecado. Nenhum cristão espiritual se curvaria diante de um ídolo. Isto era tão fácil como preto e branco. Todo mundo concordava.
Mas as graduações de cinza apareceram quando alguns respingos da cultura dos pagãos que adoravam ídolos atingiram os cristãos. Será que a gente podia comer a carne que os pagãos tinham oferecido aos seus ídolos? Isto era prejudicial? Um cristão podia fazer isto? Comer esta carne era a mesma coisa que adorar o ídolo ao qual ela tinha sido sacrificada? Ou será que isto era o que a Bíblia chama de "aparência do mal"?
Para nós comer carne sacrificada a ídolos causa poucos ou nenhum problema. Mas 1 Co 8-10, que trata deste problema em seus detalhes, é extremamente importante. Esta passagem nos fornece princípios básicos de ética cristã que nos ajudarão a decidir em todos os assuntos que vierem ao nosso encontro em que tivermos dúvidas. Eu não conheço nenhum cristão que não esteja nessa situação. Precisamos de toda a ajuda que podemos conseguir.
Comer ou não carne sacrificada a ídolos é um assunto amoral. Temos de ter isto em mente para compreendermos esta secção de maneira completa. Não é nem moral, como amar o vizinho, nem imoral, como assassinato. Em si ele não tem qualidades boas ou más. Só as implicações que as pessoas lhe conferem pode lhe dar um ou outro significado ético.
Se conseguirmos compreender o ensino ético que Deus nos proporciona nestes capítulos, seremos capazes de resolver quase todos os problemas amorais com que, por uma ou outra razão, nos defrontarmos. Para os coríntios era a carne. Para nós, podem ser muitas coisas.

O problema: Carne sacrificada a ídolos

Contra o que os coríntios tinham de se posicionar? Excetuando a relativamente pequena colônia judia da cidade, toda a população de Corinto praticava a idolatria. Era a religião nacional. Adorar ídolos — e tudo o que isto compreendia (não esqueça do templo de Afrodite!) — tinha-se tornado parte intrínseca de sua vida, principalmente de suas atividades morais.
Reuniões familiares ou qualquer outra desculpa para uma festa maior, muitas vezes, eram ligadas com a festa de algum ídolo. Os que se convertiam ao cristianismo renunciavam imediatamente aos aspectos religiosos da idolatria. Eles sabiam que isto violava o primeiro mandamento que Deus lhes tinha dado. Reconheceram que o ídolo na verdade não era nada, só um objeto sem vida. Dispensaram a idolatria.
Mas os aspectos sociais da idolatria ainda traziam problemas espinhosos para os cristãos. Nem sempre era fácil separar a dimensão religiosa da vida social ou cultural. Havia três lugares em especial onde os coríntios podiam conseguir carne sacrificada a ídolos, ficando suspeito de tê-los adorado.

Onde encontrar a carne?

O primeiro lugar era o próprio templo dos ídolos. Alguém que quisesse dar uma festa comprava um novilho e o levava ao sacerdote para preparar a festa. O sacerdote matava o animal, queimava a gordura e os miúdos do animal em sacrifício ao ídolo escolhido, e usava o resto do novilho para oferecer no banquete cultural.
O sacerdote podia ficar com uma porção de carne como pagamento por seus serviços. Se sobrasse carne do banquete, ela era vendida aos açougueiros do mercado público. As festas mais extravagantes eram realizadas nos templos, e, às vezes, amigos ou parentes cristãos eram convidados.
0 segundo lugar em que os coríntios costumavam comer carne sacrificada a ídolos era em casa. Algumas pessoas, em vez de pagar as despesas de uma festa realizada no templo, traziam a carne para casa depois do sacrifício e convidavam seus amigos.
A festa, então, não transcorria às vistas do ídolo, mas a carne não era diferente da servida no templo. Será que um cristão podia aceitar um convite para um encontro social deste tipo? Ou isto era a mesma coisa que ir ao templo?
Por último, os mercados públicos também estavam cheios de carne sacrificada a ídolos. Tanto os cultuadores como os sacer¬dotes costumavam vender a carne que sobrava para os açougueiros. Já que os animais sacrificados tinham de ser sem defeito, esta era a melhor carne de todas.
É claro que era impossível distinguir entre carne sacrificada a ídolos e outras carnes, no balcão do açougueiro. Esta situação deixava as donas-de-casa cristãs escrupulosas num dilema, quando iam às compras.

Os abstinentes

Lembre-se de que, infelizmente, a principal qualidade não-espiritual dos coríntios era o mundanismo.O mesmo mundanismo que os dividira em quatro partidos, que os fizera tolerantes demais com o pecado em seu meio, e a distorcer os padrões divinos sobre sexo e casamento. Esta atitude também os levou a tomar posições opostas entre si no problema da carne.
Surgiram brigas feias. Alguns tinham convicções firmes quanto a não comer nenhum tipo de carne sacrificada a ídolos, não importa de onde fosse conseguida. Os judeus convertidos, compreensivelmente, poderiam pensar assim. Eles não comiam carne que não fosse "kosher", preparada conforme seus costumes. Muitos pagãos que antes da conversão tinham sido muito fanáticos por seus ídolos devem tê-los acompanhado na abstinência.
Missionários contam com freqüência que o zelo religioso parece ser um traço da personalidade. Ele acompanha a pessoa quando ela muda de religião. Um pagão fanático muitas vezes passa a ser um cristão fanático (ou anti-pagão). E um pagão moderado geralmente se torna um cristão moderado.
Assim, podemos compreender por que os idolatras mais devotos foram para o outro extremo, de rejeitar totalmente tudo que para eles era um vestígio da religião paga. Eles prefeririam se tornar vegetarianos que pôr carne sacrificada a ídolos na boca. Comer carne de qualquer tipo agora era pecado.
Seu principal erro era atribuir valores morais a assuntos amorais. Quem faz isso sempre procura problemas.

Os permissivos

O grupo que se opunha a eles também era mundano, mas pensava com mais clareza. Eles constataram, com razão, que comer carne era um assunto amoral. Por isso podiam analisar o problema com menos emoção. Eles tinham rejeitado a idolatria, mas, ao mesmo tempo, estando em ordem com Deus, eles não viam nada de errado em comer carne, que podia ou não ter sido sacrificada a ídolos.
Afinal, o que um ídolo era mais que um pedaço de madeira esculpido? Que diferença fazia se um novilho era morto diante de um pedaço de pedra, no campo, ou no matadouro? A carne era a mesma.
Estas pessoas comiam carne onde e quando queriam — às vezes até no templo de um ídolo. Desta maneira eles enfureciam os irmãos que ensinavam que comer carne era imoral.

Os fracos e os fortes

Em 1 Co 8-10 Paulo chama os abstinentes de fracos (8.9). No mesmo trecho ele não usa a palavra "forte". Mas eu acho que seria certo dizer que Paulo considerava o grupo oposto "forte".
Em quase todas as igrejas do mundo a gente pode encontrar cristãos fortes e fracos. Se os membros da igreja são espirituais, eles viverão em harmonia e comunhão. É assim que deve ser. Não é pecado ser fraco ou forte. O corpo de Cristo é composto dos dois.
O pecado só entra em questão quando os fracos e os fortes começam a brigar, perturbando a comunhão. Isto acontece quando a igreja é carnal, como a de Corinto. É inevitável que haja problemas, que se expressarão na forma de um monstro de duas cabeças. Os cristãos fracos julgarão os fortes e os chamarão de "mundanos".
Os cristãos fortes responderão chamando os fracos de "fanáticos". Encontramos o melhor exemplo disso em Rm 14.3, onde Paulo diz: "Quem come não despreze ao que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu".
Se faltar amor, cada grupo achará que é espiritualmente superior ao outro. Isto é um fato interessante, mas importante. A questão é esta: fraqueza ou força de um cristão (no sentido em que a mencionamos) não está relacionada diretamente com sua espiritualidade. Ela pode ser relacionada com antecedentes psicológicos, emocionais ou religiosos, às vezes até com atitudes de antes da conversão.
A conversão não faz alguém forte ou fraco. Existe cristãos fracos espirituais e mundanos. Existe cristãos fortes mundanos e espirituais. Não é o conhecimento que faz a diferença entre espiritualidade e mundanismo. É o amor. Constatamos novamente que o problema básico dos coríntios era sua falta de amor cristão.

O princípio: O amor deve controlar o conhecimento

Esta questão ética importante abrange as melhores partes dos três capítulos, 1 Co 8-10. No começo Paulo contrasta o conhecimento e o amor, ambos qualidades boas. As duas linhas correm uma ao lado da outra pelo capítulo 8. Paulo elogia o conhecimento dos cristãos fortes, que não tinham problemas com a carne sacrificada aos ídolos: "Sabemos que o ídolo de si mesmo nada é no mundo" (8.4); "Não há esse conhecimento em to¬dos" (8.7).
Em outras palavras, sua posição doutrinária estava certa. Mas isto não era suficiente.
O conhecimento do cristão, por mais certo que esteja, precisa ser temperado com o amor cristão. Paulo menciona isso na mesma passagem: "Se alguém ama a Deus esse é conhecido por ele" (8.3). Sem amor é fácil pecar "contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca" (8.12). O primeiro versículo praticamente resume tudo: "O saber ensoberbece, mas o amor edifica". O conhecimento só é útil quando controlado pelo amor.
É interessante que esta secção é dirigida para os cristãos fortes de Corinto, não para os fracos. Por quê? Creio que há duas razões: A primeira é, ao que parece, provavelmente os fortes consultaram Paulo sobre o assunto.
Mas a segunda pode ter uma importância maior. Quando há conflito entre o estilo de vida dos fortes com o dos fracos, os fortes têm de levar a maior parte da carga, em termos de se adaptar e ajustar. A quem muito é dado, muito é exigido. Seu conhecimento superior exige um amor superior.

O Concilio de Jerusalém

Um dos aspectos mais interessantes da argumentação de Paulo aqui é que ele não invoca a decisão do Concilio de Jerusalém.
O Concilio de Jerusalém foi realizado uns cinco anos antes que Paulo escreveu 1 Coríntios. No Concilio Paulo argumentou que os gentios convertidos, que aceitavam a Cristo, não preci¬savam ser circuncidados e identificar-se culturalmente com os judeus. Ele defendeu a posição de que os gentios podem continuar sendo gentios, quando se tornam cristãos.
Havia um grupo de judaizantes lutando contra ele, que diziam que só pode ser salvo quem é circuncidado conforme o ritual judaico. Eles também queriam que os convertidos gentios observassem outras leis judaicas, como não comer carne de porco e guardar todas as leis do sábado. Carne sacrificada aos ídolos era outro assunto importante para eles.
Em At 15.1-29 temos um relato do concilio. Depois de um longo debate foi decidido que os crentes gentios não precisavam ser cincuncidados. Eles podiam continuar gentios, e os judeus não deveriam "perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus" (At 15.19). O Concilio, no entanto, acrescentou algumas cláusulas éticas que incluíam "abster-se das coisas sacrificadas a ídolos" (At 15.29).
Muitos estudiosos da Bíblia têm-se perguntado: Já que surgiu o problema com a carne sacrificada a ídolos em Corinto, por que Paulo não encerrou a discussão simplesmente citando o Concilio de Jerusalém, em vez de escrever três capítulos inteiros sobre o assunto?
A evidência indica que Paulo pode ter estado contente por vencer a discussão sobre a circuncisão cinco anos antes, em Jerusalém, mas não com as outras cláusulas que foram acrescen¬tadas. Parece que ele achava que a afirmação "Abstenham-se das coisas sacrificadas a ídolos" era uma tentativa muito superficial de resolver um assunto ético tão complexo. Para os judeus em Jerusalém pode ter sido o suficiente, mas não era adequado para os cristãos gentios em Corinto e em outros lugares.
Para Paulo, comer carne sacrificada a ídolos era um assunto amoral: "Não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos se não comermos, e nada ganharemos se comermos" (1 Co 8.8). Isto contrasta com a conclusão do Concilio de Jerusalém, que considerou comer carne sacrificada a ídolos imoral,e não amoral. Por isso Paulo não podia desfazer-se do problema com uma ou duas frases de Jerusalém. Ele tinha de se aprofundar mais no assunto.

A vantagem de ser forte

Se os cristãos fortes de Corinto estivessem vivendo sozinhos em alguma ilha deserta, eles poderiam comer quanta carne quisessem, sem ficarem menos espirituais por este fato. Mas isto não é tão simples quando a gente vive em uma comunidade cristã com outros que às vezes não concordam totalmente com a gente.
Quando cristãos mais fracos estão na mesma igreja (o que geralmente é o caso), isto precisa moderar e guiar o conhecimento superior que os cristãos mais fortes têm. Eles não podem somen¬te pensar em sua posição. Eles também precisam ter cuidado para não ofender os cristãos mais fracos ou ser uma pedra de tropeço para eles, porque "há pessoas tão acostumadas com os ídolos, que até agora, quando comem, ainda pensam que aquela comida pertence aos ídolos" (1 Co 8.7). É irrelevante se ela é mesmo ou não. Para sua consciência ela é contaminada.
De forma que, se as ações e atitudes dos cristãos mais fortes levam os mais fracos a comer o que eles acham que não deveriam, "perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu, por causa do teu saber" (1 Co 8.11). Se isto acontecer, todos pecaram, também os fortes. Uma situação destas seria um caso clássico de conhecimento não dominado direito pelo amor cristão.
Paulo se identifica com o grupo forte, porque para ele o assunto é amoral, e faz uma conclusão citando sua própria regra de vida: "Por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo" (1 Co 8.13).
Veremos mais adiante que os cristãos não precisam se submeter a todas as convicções absurdas que algumas pessoas têm. Mas é uma norma válida e útil de comportamento cristão.

Paulo e Israel

Nos capítulos 9 e 10 encontramos duas ilustrações deste princípio: uma positiva (o próprio Paulo) e outra negativa (Israel). Vamos olhar mais de perto.
Paulo começa dizendo que ele tem certos direitos que poderia ter usado, se quisesse. Mas não o fez, para bem dos resultados do seu ministério. Por exemplo: Ele poderia ter casado. "Não temos nós o direito... de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?" (1 Co 9.5).
Ele poderia ter cobrado pagamento por seu serviço: "Será que Barnabé e eu somos os únicos que temos de trabalhar para o nosso próprio sustento? Quem já ouviu falar de um soldado que pagou as suas próprias despesas no exército?" (1 Co 9.6,7, BLH). E ele acrescenta: "Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais?" (9.11).
Não importa se casar ou cobrar pela pregação são assuntos amorais, como comer carne sacrificada a ídolos. Paulo renun¬ciou a eles voluntariamente, "para não criarmos qualquer obstáculos ao evangelho de Cristo" (1 Co 9.12). Ele amava os cristãos mais fracos e não queria ofendê-los, na menor coisa que fosse. A coisa mais importante para ele era fazer a obra de Deus da melhor maneira possível. E se isto implicava em esquecer de alguns direitos, ele estava mais que disposto a fazê-lo.
Paulo era uma pessoa muito flexível. Ele estava totalmente dedicado à sua missão, e era uma pessoa prática. Sua tarefa era "ganhar o maior número possível" (1 Co 9.19), e ele se adaptava a qualquer situação para consegui-lo. Quando estava em uma comunidade de judeus, ele se enquadrava na Lei judaica: "Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus" (9.20). Isto queria dizer abster-se de carne de porco e carne sacrificada a ídolos, e recomendar aos pais que circuncidassem seus filhos homens. Isto era natural para Paulo. Encaixava-se em seu próprio passado.
Mas o ministério de Paulo era muito mais amplo. Deus o tinha chamado para ser apóstolo aos gentios. Quando estava entre estes, não se comportava como judeu: "Quando estou entre os que não são judeus, vivo fora da Lei de Moisés, a fim de ganhar os não-judeus" (1 Co 9.21, BLH). Isto implicava em comer carne de porco e carne sacrificada a ídolos (não sempre, como veremos daqui a pouco), e em não mandar os pais circuncidarem seus filhos homens.
Por que Paulo agia assim? Ele chega a repetir sua lição quatro vezes nestes quatro versículos: "Com o fim de, por todos os modos, salvar alguns" (1 Co 9.22). Sua preocupação principal era evangelizar com eficiência. Ele estava disposto a dispor de seus direitos e se ajustar à maneira de viver das pessoas, se isto o ajudava a evangelizar melhor.
A segunda ilustração de Paulo nesta passagem menciona as andanças do povo de Israel pelo deserto. Eles eram o povo esco¬lhido de Deus. Eles eram como alguns cristãos fortes do nosso tempo, porque tinham algum conhecimento. Mas Israel caiu em uma armadilha em que muitos cristãos fortes caem. Paulo diz que "estas coisas lhes sobrevieram... para advertência nossa" (1 Co 10.11). O problema deles foi que sua atitude liberal em assuntos amorais foi longe demais e incluiu alguns assuntos imorais.
Israel gozou de todas as vantagens de estar "sob (a proteção) da nuvem", "passaram (com segurança) pelo mar (Vermelho)", "tendo sido batizados... com respeito a Moisés", "comeram de um só manjar espiritual" e "beberam da mesma fonte espiritual, ... que os seguia. E a pedra era Cristo" (1 Co 10.1-4).
Mas estas vantagens espirituais não evitaram que o povo de Israel pecasse. Adoraram ídolos e fizeram uma festa que virou uma orgia de bebida e sexo (1 Co 10.7).
"Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia" (1 Co 10.12). Isto é uma palavra de advertência para cristãos fortes. Os cristãos fortes de Corinto precisavam dela para serem preparados para as instruções de Paulo quanto à carne sacrificada a ídolos.

Aplicações práticas

Agora Paulo passa dos princípios éticos para sua aplicação prática no problema específico dos coríntios. Enquanto a analisamos, tenha em mente que o mesmo tipo de decisão que Paulo toma em relação à carne sacrificada a ídolos também se aplica aos nossos problemas, apesar de os detalhes serem outros, o que é óbvio.
Paulo tem uma aplicação prática diferente para cada lugar em que os coríntios podiam obter e comer carne sacrificada a ídolos: os templos dos ídolos, o mercado público, e casas de amigos.

Quando comer e quando não

A primeira situação que tentava os coríntios a comer carne sacrificada a ídolos era nos templos dos ídolos. Aqui Paulo põe seu pé na porta. Ele diz que comer carne diretamente na frente do ídolo é ir longe demais. Se o cristão participa de uma festa na presença do ídolo (mesmo sabendo que este é só um pedaço de pedra), ele passou a linha que separa uma ação amoral (comer carne) de um pecado (idolatria). "Digo que as coisas que eles sa¬crificam, é a demônios que as sacrificam, e não a Deus; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios" (1 Co 10.20,21).
Preste atenção ao que aconteceu aqui. Comer carne sacrificada a ídolos, uma coisa amoral para Paulo, se torna imoral no templo. Isto, então, seria uma situação em que é proibido para todos os cristãos, fracos e fortes, comer carne sacrificada a ído¬los.
A situação oposta é comprar carne no mercado público. Havia carne sacrificada a ídolos nos ganchos do açougueiro, que não fora consumida numa festa, e havia carne não sacrificada. A aparência era a mesma. Os cristãos fracos diziam que não se devia comprar carne em nenhuma circunstância, porque sempre havia a possibilidade de receber carne sacrificada a ídolos.
Na opinião de Paulo estes estavam levando seus escrúpulos longe demais. Estando no mercado, o simbolismo religioso da carne não tinha mais importância. Paulo diz: "Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência" (1 Co 10.25). Não deve mais haver dúvidas sobre este assunto. Carne no mercado público é totalmente amoral. Cristãos fracos deveriam parar de dizer que ela era imoral.
A terceira situação, a de comer carne na casa de um amigo, é a mais complexa. Carne no templo de um ídolo? Não! Carne no mercado? Sim! Mas — e carne na casa de um amigo? Sim e não!
Em primeiro lugar, Paulo diz que se você é convidado à casa de um amigo não cristão, primeiro você precisa decidir se vai ou não. Não se trata de um assunto ético. Se quiser, pode ir. No capítulo 5 Paulo tinha recomendado ter contato com incrédulos (1 Co 5.9-10). Digamos que você tenha ido. Será que pode comer a carne servida?
Se ninguém diz que a carne foi sacrificada a ídolos, coma à vontade, "sem nada perguntardes por motivo de consciência" (1 Co 10.27), é o conselho de Paulo. Mas ele acrescenta: "Porém, se alguém vos disser: Isto é coisa sacrificada a ídolo, não comais" (1 Co 10.28).
A razão disto é clara. Para você a carne é amoral. Mas ela se torna imoral assim que alguém, crente ou descrente, a associa com um ídolo. Sem dúvida comer carne é uma atividade social. Com as perguntas, ela se torna uma atividade religiosa.
A carne não muda, mas seu significado muda. A esta altura, é melhor deixar de comer. O amor cristão tem precedência sobre o conhecimento cristão. Não comendo você demonstra amor para os descrentes presentes e para os irmãos e irmãs fracos.

A ética é relativa?

Nem todos os assuntos de ética cristã são relativos. A Bíblia ensina muitos princípios éticos absolutos. Transgredi-los é sempre errado, em qualquer lugar. Certas práticas são imorais, e ponto final. O cristão deve evitá-las. O homem que dormia com sua madrasta, mencionado em 1 Co 5, é um exemplo. Não existe nenhuma situação em que adultério não seja pecado. A mesma coisa vale para assassinato, homossexualismo e bebedice.
Mas também existem muitas áreas duvidosas, em que assuntos morais da ética são mesmo relativos. Depende da situação. Missionários sabem de como o comportamento às vezes precisa mudar quando a situação muda.
Por exemplo: sentar com as pernas cruzadas para a maioria de nós é um assunto amoral. Na Tailândia, entretanto, é imoral. O povo tai atribui uma grande honra à cabeça humana. Por isso, um pé apontado para a cabeça de alguém é um grande insulto. E cristãos ocidentais com sensibilidade irão sentar-se com a planta dos pés no chão na Tailândia. Quando voltarem ao seu país podem novamente dobrar as pernas como quiserem.
Não é necessário negar, ou explicar mais, que muitas decisões sobre ética cristã dependem das circunstâncias.
Quem quiser questionar isto precisa estudar com cuidado a questão da carne sacrificada a ídolos em Corinto. Como vimos, é errado em algumas situações e certo em outras. Mesmo no mercado nem todos os cristãos podiam comprar e comer carne, apesar de Paulo concluir que isto era um assunto amoral.
Isto acontecia com muitos judeus crentes, que ainda mantinham uma cozinha estritamente "kosher". Sua consciência não lhes permitia comprar carne no mercado, e eles precisavam obedecer sua.consciência. Mas também não podiam obrigar os outros crentes a aceitar suas decisões éticas.
Hoje em dia é muito comum encontrar pontos de vista éticos tão diferentes na mesma igreja. E nestes casos o amor cristão precisa reinar acima de tudo. Os coríntios tiveram problemas sérios porque não souberam como lidar com estas diferenças de opinião e de perspectiva. Nenhum grupo respeitou os sentimentos do outro, nem os fortes, nem os fracos.
Para ilustrar: Eu tenho muitos amigos (a maior parte pastores) que são adventistas do sétimo dia. Muitos são vegetarianos. Não tomam nem café nem chá. Não fumam. Quanto a isto não temos problemas porque eu também não fumo. Mas eu como carne. É às vezes tomo café e chá. Estes estilos de vida diferentes não prejudicaram nosso relacionamento em todos estes anos, porque respeitamos um a consciência do outro.
Quando faço seminários eu ponho no programa pausas para café. Mas, quando há adventistas presentes, eu providencio suco de laranja para eles. Quando convido um grupo misto de pastores para almoçar no restaurante do seminário, que serve carne, eu como carne, e os adventistas não. Se, por outro lado, eu sou convidado para almoçar por um grupo de adventistas do sétimo dia, jamais eu peço carne ou tomo café. Isto não é hipocrisia; é um comportamento baseado numa aplicação bíblica do amor cristão.

Pode-se ir ao cinema?

Alguns cristãos levantam esta questão hoje em dia. Nestes 30 anos em que eu sou cristão eu vi uma mudança grande ocorrer na maneira em que esta pergunta ética é feita.
Há trinta anos, antes de existir televisão, a pergunta era de se ir ao cinema, em geral, era amoral ou imoral. Muitos amigos meus pensavam que era imoral. Qualquer pessoa que fosse às escondidas assistir Branca de Neve e os Sete Anões ou um filme do Gordo e do Magro, o faria com muito receio e às vezes até com sentimento de culpa.
Hoje em dia, porém, bem poucos dos meus amigos cristãos acham que ir ao cinema em si é imoral. A tendência é classificá-lo como amoral. O cinema é considerado nada mais que um meio de comunicação, assim como livros, jornais, rádio e quadros de avisos. Chega-se à conclusão que ir ao cinema hoje em dia é muito parecido como comer carne sacrificada a ídolos em Corinto. Em si o assunto é amoral. Mas em alguns casos pode se tornar imoral. É nestes casos que alguns cristãos se insurgem contra decisões éticas.
Nossa igreja usa filmes para instrução e inspiração. Mesmo fora da igreja, não consigo pensar em nenhum amigo meu que teria objeções a alguém ver Branca de Neve ou A Noviça Rebelde, num cinema público. Agora que temos censura, a maior parte dos meus amigos concorda que filmes de censura livre são amorais, bem como filmes cristãos distribuídos por empresas especializadas.
Na outra ponta, eu não tenho nenhum amigo cristão (que eu saiba) que aprove filmes com censura 18 anos. Na minha igreja a pornografia é considerada pecado. É como comer carne sacrifi¬cada a ídolos no templo. É imoral por natureza.
Existem muitos filmes entre a censura livre e a censura 18 anos. Muitos cristãos dizem que estes também não prestam. Ou¬tros têm outras opiniões. Esta é uma das áreas difíceis e delicadas onde provavelmente há lugar para mais de uma opinião cristã, e onde amor e respeito mútuos se fazem necessários. Em todo caso, se assistir a qualquer filme fizer meu irmão ou irmã tropeçar, eu deixaria de ir, assim como Paulo deixou de comer carne em certas situações.
A lista de assuntos duvidosos ou amorais nas nossas igrejas é longa. Alguns itens nos afetam mais que outros, dependendo de onde vivemos e a que igreja pertencemos. Mas os princípios propostos por Paulo nestes capítulos nos servirão de guia em qualquer situação. Vale a pena assimilá-los e aplicá-los em cada caso. Veremos cada vez mais que a igreja de Corinto de quase dois mil anos atrás era mesmo como uma igreja atual.

Perguntas para debate
1) Explique como Paulo conseguiu ensinar sem ser contraditório que às vezes a gente pode comer carne e às vezes a gente não pode comer a mesma carne.
2) Defina o que são cristãos fortes e cristãos fracos. Dê exemplos dos dois tipos, de pessoas que você conhece (sem mencio¬nar nomes). Ser fraco ou forte é sinal de espiritualidade? Se precisar de mais informações, leia Rm 14.
3) Faça uma lista dos assuntos éticos sobre os quais os cristãos da sua região parecem ter dúvidas — que não são, nem totalmente errados nem totalmente certos. Depois tente enquadrar cada item de alguma forma neste esboço:
a) Como carne do mercado — faça-o sem se preocupar, mas também sem fazer barulho.
b) Como carne no templo do ídolo - nunca o faça.
c) Como carne servida na casa de um amigo:
1) Em algumas circunstâncias, vá em frente;
2) Em outras circunstâncias determinadas, deixe de fazê-lo.
3) Pense em outras culturas em seu país ou em outros países onde a posição cristã quanto a assuntos éticos semelhantes poderia ser diferente.

PETER WAGNER
Extraído do Livro "Se Não Tiver Amor" Cap. 6 - Ed. Luz e Vida

ESCÂNDALO - A PEDRA DE TROPEÇO NO CAMINHO - SKANDALON E SKANDALIZEIN


Skandalon é a palavra que a ARA (Bíblia de Almeida, Revista e Atualizada) traduz por “escândalo”, “tropeço”, “armadilha”, e “cilada”, e skandalizein é o verbo correspondente. O que há de interessante nesta palavra é o fato de ela ter por trás de si não um retrato, mas dois, e a distinção entre os dois freqüentemente nos oferece¬rá um quadro muito mais vivido.
A palavra skandalon não é de modo algum uma palavra do grego clássico. É grego posterior e, na realidade, é muito mais comum na Septuaginta e no NT do que em qualquer outro lugar. O equivalente clássico é skandalêthron, que significa “a vareta com isca na armadilha”. O skandalêthron era o braço ou a vareta em que a isca era fixada. O animal para o qual a armadilha era armada era levado pela isca a tocar ou pisar na vareta; a vareta acionava uma mola, e assim o animal era conduzido à sua captura ou destruição. No grego clássico a palavra é usada por Aristófanes a respeito das “armadilhas verbais” armadas para levar uma pessoa a ser derrotada num argumento. Portanto, fica claro que a qualidade original da palavra não era tanto “uma pedra de tropeço” para fazer alguém tropeçar, mas uma “atração” para levar alguém à destruição.
Quando nos voltamos para a Septuaginta percebemos que esta distinção ainda está bem clara. A palavra grega skandalon é usada para traduzir duas palavras hebraicas. (a) É usada para traduzir a palavra michsol, que bem claramente significa uma “pedra de tropeço”. Assim está em Lv 19.14: “Não porás tropeço diante do cego.” É usada assim no Sl 119.165: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço.” (b) É usada para traduzir a palavra mokesh, que certamente significa “um laço” ou “uma armadilha”. Sendo assim, declara-se em Js 23.13 que as alianças com as nações estrangeiras são “laços” e “redes”. No Sl 140.5 o salmista diz que os soberbos ocultaram “armadilhas” e cordas contra ele; estenderam uma “rede” à beira do caminho; armaram “ciladas” contra ele. No Sl 141.9 o salmista ora: “Guarda-me dos laços que me armaram, e das armadilhas dos que praticam iniqüidade.” No Sl 69.22 o salmista diz: “Sua mesa torne-se-lhes diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha.” A idéia é que o sucesso e a prosperidade podem tornar-se em armadilha em lugar da bênção. Na Septuaginta, portanto, a palavra skandalon tem duas idéias por trás dela. Significa ou uma “pedra de tropeço”, objeto colocado no caminho de um homem para fazê-lo tropeçar, ou “uma armadilha”, “uma isca”, “um engodo” para atraí-lo para fora do seu caminho e assim arruiná-lo.
Quando nos voltamos ao NT descobrimos que a ARA quase sempre traduz skandalon por “tropeço”, palavra esta que é melhor entendida quando vamos àquelas passagens com o sentido duplo de skandalon em nossas mentes; achamos que em certas passagens o outro significado oferece um quadro mais vivo.
(i) Há algumas passagens onde qualquer dos significados é perfeitamente apropriado. Em Mt 13.41 diz-se que o Filho do homem removerá todos os skandala do Seu Reino. Quando o Reino vier, todas as coisas que pretendem levar o homem a pecar, todas as coisas que poderiam fazê-lo tropeçar, todas as coisas que o atrairiam e o seduziriam para o caminho errado serio removidas. O Reino será um estado de coisas onde a tentação perderá o seu poder.
(ii) Há algumas passagens onde o significado ”pedra de tropeço” é mais apropriado, ou onde é até mesmo essencial. Em Rm 14.13 somos proibidos de colocar “tropeço” ou “escândalo” ao nosso irmão. A palavra aqui traduzida “escândalo” é proskomma, que significa “barreira,” “impedimento,” “obstáculo que bloqueia a estrada”. É a palavra que seria útil para descrever uma árvore que foi cortada e colocada atravessando a estrada para bloqueá-la. Nunca devemos praticar ou permitir coisa alguma que seja um obstáculo no caminho para a bondade. Em Mt 13.21 declara-se que o ouvinte superficial da palavra é “escandalizado” (skandalizein) pela perseguição. A perseguição é um tropeço que o impede de avançar pelo caminho cristão. Os fariseus “se escandalizaram” com Jesus e Suas palavras (Mt 15.12). Jesus prediz que todos os Seus discípulos se “escandalizarão” com Ele (Mt 26.31). Os falsos mestres armam “ciladas” diante dos outros (Ap 2.14). Os judeus acham a cruz de Cristo um “escândalo” (1 Co 1.23; Gl 5.11). Em todos estes casos, as palavras significam algo que impede o progresso de um homem, algo que o faz tropeçar, algo que lhe impede o caminho. Esse “algo” pode provir da atuação maliciosa dos outros, ou pode provir do preconceito e orgulho do próprio coração do homem.
(iii) Mas há certos casos em que obtemos um quadro muito melhor ao entendermos skandalon e skandalizein no sentido de um “ardil”, uma “armadilha”, uma “isca”, uma “sedução”, um “engodo para o pecado”. Rm 16.17 adverte contra aqueles que provocam divisões e “escândalos” em desacordo com a doutrina que o povo de Cristo recebeu. Esta é uma advertência contra aqueles que nos querem desviar do caminho da fé verdadeira. 1 Jo 2.10 diz: “Aquele que ama a seu irmão, permanece na luz e nele não há nenhum tropeço.” Isto quer dizer: “Ele nunca atrairia nem seduziria alguém para o pecado.” Mt 18.6 fala do pecado de “fazer tropeçar” um destes pequeninos, e o versículo seguinte fala de quão terríveis são os “escândalos”. Obtemos um quadro muito melhor se entendermos skandalon e skandalizein ali no sentido de seduzir as pessoas mais jovens e mais influenciáveis para o pecado. Mt 5.29 e 30 falam da necessidade de cortar e de arrancar a mão e o olho que nos “fazem tropeçar”. Claramente, é melhor entender skandalon no sentido daquilo que arma uma cilada ou armadilha para nos seduzir pra a ruína do pecado. Se os desejos da mão e do olho são uma isca para o pecado, devem ser erradicados.
Quando o poeta Burns foi aprender a cardar linho, ficou conhecendo um homem mais velho que o levou para longe do caminho. Disse a respeito dele depois: “Sua amizade me causou dano.” É exatamente este o significado de skandalon. Um skandalon é aquilo que nos faz tropeçar ou que nos seduz para o pecado. Tais coisas devem ser desarraigadas das nossas próprias vidas; Deus não nos considerará inocentes se levarmos tais coisas para as vidas dos outros.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

ADORAÇÃO... EXTRAVAGANTE???



Segundo o Aurélio, estrambótico é o mesmo que extravagante, e, segundo o mesmo dicionário, extravagante é algo ou alguma pessoa que anda fora do seu lugar, que se afasta do habitual, do comum, estrambótico, excêntrico, esquisito.

Tenho nesses últimos meses visto muitas pessoas falando sobre esse “tal” louvor extravagante e outros, me perguntando se eu sou um adorador extravagante.

Afinal o que vem a ser um “adorador extravagante” ou “louvor extravagante?” O “louvor profético” já saiu de moda?

Fiquei curioso pra saber se sou ou não um adorador estrambótico. Existe base bíblica ou princípios bíblicos que justifiquem essa “nova” descoberta?

O rápido crescimento das igrejas evangélicas no Brasil nesses últimos anos tem sido marcado por várias mudanças na liturgia das igrejas, principalmente no chamado “ministério do louvor”. É uma pena que esse crescimento e mudanças internas de nosso arraial gospel ainda não produziram nenhum impacto externo relevante para a nossa sociedade... mas isso é outro assunto! Mas o que tenho visto são alguns irmãos no desejo de estarem inseridos nessa “nova” modalidade de adoração descambando ao uso constante da linguagem da emoção. Pular, gritar, gargalhar ou chorar compulsivamente, repetir frases excessivamente; como se possuíssem um poder mágico, rolar pelo chão ou simplesmente “cair no poder” são as características que definem se você é ou não um adorador extravagante ou estrambótico.

Se me assistirem numa apresentação do Fruto Sagrado, com certeza estarei bem classificado no quesito “estrambótico”, “esquisito”, “fora do comum”!

Como achismos e modismos nunca serviram pra minha vida e não servem para vida de ninguém, recorri a única bússola de nossas vidas – A Bíblia Sagrada.

Após ler vários textos bíblicos fica claro que adoração é expressar nosso amor a Deus por aquilo que Ele é, pelo o que Ele fez e pelo que tem feito em nossas vidas. A adoração a Deus pode ser expressa de diferentes formas: orando de forma silenciosa ou em voz alta, cantando com ou sem instrumentos, obedecendo, testemunhando, doando “tutu”, dizimando, confiando, ou seja a adoração não é parte de nossa vida; ela é a nossa vida! É muito mais do que alguns minutos durante um culto. No Salmo 113.3 está escrito: “Cantem glorias e louvem ao senhor desde o nascer até o por do sol”. É no trabalho, é em casa, é na batalha, é na prisão, numa cama confortável ou num leito de hospital!

Adoração é fazer com que o nosso dia a dia, o nosso comer, trabalhar, passear, dormir ... tudo seja oferecido a Jesus em todos os momentos.

Adoração é um estilo de vida. Extrapola o momento do culto! A Adoração produz em nós o desejo de falar de Cristo para as outras pessoas, a adoração altera o nosso testemunho, o nosso modo de “ver e viver a vida”!
Qualquer atitude nossa que agrade a Deus é um ato de adoração, seja extravagante ou discreta. Adoração é muito mais que música, a adoração não tem haver com estilo musical, volume ou andamento da musica, nem com o jeito de canta-la (virado ou não pra parede por exemplo!).

Deus ama todos os estilos de música, pois foi Ele que inventou! Freqüentemente nós cristãos, discordamos quanto ao estilo de música , dizendo que o estilo “x” é melhor ou mais indicado do que o estilo “y”. Pura imaturidade.

Se for oferecida a Deus em espírito e verdade então é adoração. A Bíblia diz em João 4.23 e 24 que “o Pai procura por adoradores que o adorem em espírito e em verdade”. Isso significa que adorar a Deus tem que fazer parte integral da fé cristã e que o essencial não é a “forma”, o essencial no adorador é amar a Deus sobre todas as coisas. Independe se sou estrambótico ou não.

O Pr. Russell Shedd é categórico: “o ativismo e a agitação podem ser sinais de devoção como também podem ser apenas hábitos ou expressões externas de obrigações litúrgicas”.
Ele ainda afirma, “que não podemos avaliar a qualidade pela forma, porque não sabemos o que se passa no coração dos adoradores”.

Jesus fala sobre isso em Marcos 7.6 “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração esta longe de mim”.

É possível pular, dançar, chorar, fazer chover, declarar aos berros “Jesus eu te amo” e tudo não passar de um ritual vazio e sem valor. No capitulo 29 do livro do profeta Isaías está escrito: “A adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens”.

Daí minha inquietação quando vejo meus irmãos tupiniquins questionando se a minha igreja possui o louvor extravagante ou se eu sou adepto de práticas estrambóticas de louvor. Mais preocupante é constatar da parte de alguns um sentimento discriminatório quando afirmo incisivamente que minha relação com Deus não é guiada por modismos importados ou inventados por mentes humanas.

Já ouvi várias pessoas afirmarem que o louvor da igreja que freqüento é “ultrapassado”, “frio”, “é muito parado”, “eu gosto do louvor quando é igual ao da Igreja tal”. Queridos, a adoração ou o momento de louvor não é para nosso benefício. Eu não sou o foco! O louvor tem que agradar só a Deus! Se você alguma vez já disse na sua igreja: “Não gostei do louvor que foi feito hoje”. Então você adorou por motivos errados. A adoração não é pra você!

Com relação às novas práticas de adoração, no texto aos Romanos 12. 1 e 2, o Apóstolo Paulo pede a oferta de um culto integral, regido pelo elemento racional, resultando em um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

Galera! Precisamos ter inteligência emocional! Expressões emocionais sadias serão o elo entre a adoração e as diversas ligações com a vida.

Não existe na Bíblia nenhuma base que permita a emoção na adoração sobrepor a celebração. É o entendimento (conhecimento da Palavra + consciência racional do que esta sem feito ou dito) que garante a integridade ao adorador. Nosso Deus é um Deus de equilíbrio!

Parece que para muitos “apaixonados” por Jesus o entendimento “atrapalha” o perfeito louvor, o acesso à sala do trono ou ao Santo dos Santos.

O Apóstolo Paulo afirma em 1 Coríntios 14.15, “ Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente, cantarei com o espírito, mas também com a mente”.

Veja o que o próprio Deus falou para Josué: “ Se andares nos meus caminhos e observares os meus preceitos (...) te darei acesso livre aos meus átrios e entre estes que aqui se encontram”. (Zacarias 3.7)

Para adorarmos a Deus em espírito e em verdade e ficarmos diante do trono é necessário apenas viver o cristianismo direito e diário. Nosso testemunho, nosso conhecimento bíblico e a pratica dos preceitos que afirmamos crer se transformaram em sacrifícios vivos de louvor. Discreto ou extravagante? Virado pra parede ou sentado no ultimo banquinho? Pulando, dançando, gritando ou estático num silencio total? Isso não importa!
Que Ele nos ajude a entender que todos os momentos de nossa existência são para adora-lo e que o nosso testemunho seja como lábios que confessam o Seu nome!

Marcão - Vocalista do Fruto Sagrado!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

OS ÚLTIMOS DOZE VERSÍCULOS DO EVANGELHO DE MARCOS SE ACHAVAM NO MANUSCRITO ORIGINAL?



Embora a grande maioria do texto do Novo Testamento elimine qualquer dúvida, existem realmente algumas passagens cuja originalidade tem sido questionada. Sem nos estendermos demasiadamente, essas passagens incluem João 5.3, 4; João 7.53-8.11 e João 5.7. Porém, a passagem mais notável, talvez, seja a conclusão do Evangelho de Marcos.

Depois de Marcos 16.8, há uma discordância nos manuscritos existentes quanto ao que se segue. Alguns deles terminam no v. 8, com a frase: “pois tiveram medo”. Vários manuscritos contêm dois finais curtos que nenhum estudioso de textos considera como parte do manuscrito original. A maioria dos manuscritos contém, no entanto, os 12 versículos conhecidos que se encontram na Edição Revista e Atualizada no Brasil (ERAB) e em muitas outras traduções.

Será esse o fecho original de Marcos? Ou ele terminou seu Evangelho no v. 8? É possível que o original tenha desaparecido. A questão é esta: os doze últimos versos (Mc 16.9-20) — como contidos na ERAB, publicada pela da SBB — fazem parte do original do Evangelho de Marcos?

Os argumentos contra a aceitação dos doze últimos versículos como tendo autoridade podem ser dispostos em três categorias: (1) evidência externa; (2) evidência interna e (3) evidência teológica.

O argumento da evidência externa se concentra na ausência de um fecho tão longo. Nos dois manuscritos mais antigos que contêm o final do Evangelho de Marcos (Códice Sinático e Códice Vaticano), os doze últimos versos são omitidos. Algumas das versões (traduções para outras línguas) também omitem esses versículos como fizeram alguns dos primeiros pais da igreja. O fato de certos manuscritos conterem dois finais mais curtos também se opõe à idéia da leitura mais longa ser a original.

Além disso, alguns dos primeiros pais da igreja discordam quanto à originalidade desses versículos. Clemente de Alexandria e Orígenes não parecem considerar a existência desses versos, enquanto Eusébio e Jerônimo supostamente dizem que eles estavam ausentes de quase todos os manuscritos gregos que conheciam.

Alguns manuscritos que contêm a forma mais longa incluem notas escritas pelos escribas, atestando que os mais antigos não continham esses versículos. Outros manuscritos contêm marcas, indicando que existe alguma dúvida sobre a passagem.

Bruce Metzger, em A Textual Commentary on the Greek New Testa ment (p. 125), apresenta sua argumentação contra aceitar os 12 últimos versículos como incluídos no original de Marcos, baseado na evidência interna:

“O fecho mais longo (3), embora corrente em uma variedade de testemunhos, alguns deles antigos, deve ser também julgado pela evidência interna como secundário. (a) O vocabulário e estilo dos vv. 9-20 não são de Marcos (e.g., apisteo. blapto, beba iso, epakoloutheo, theaona, meta, tauta, pooeuomai. suergeô, usterou, não são encontrados em nenhum outro ponto de Marcos e Toiz met autou geiromeuoiz e theuasfou, como designações dos discípulos, ocorrem somente aqui no Testamento). (b) A ligação entre o v. 8 e os vv. 9-20 é tão forçada que fica difícil crer que o evangelista pretendia que essa desse continuidade ao evangelho.

Assim sendo, o sujeito do v. 8 é as mulheres, enquanto Jesus é o sujeito pressuposto no v. 9; No v.9 Maria Mada1ena é identificada, embora fosse mencionada apenas algumas linhas antes (15.47 e 16.1); as outras mulheres dos vv. 1-8 não são esquecidas: o uso de auaostaz de e a posição de proto são apropriados no início de uma narrativa abrangente, mas discordantes na continuação dos vv. 1-8.

Em resumo, todos esses aspectos indicam que a seção foi acrescentada por alguém que conhecia uma forma de Marcos que terminava repentinamente no v. 8 e quis suprimi-la com uma conclusão mais apropriada. Em vista das inconsistências entre os vv. 1-8 e 9-20, é improvável que o fecho mais longo tivesse sido composto ad hoc, a fim de suprir uma brecha óbvia; o mais provável é que a seção tenha sido extraída de outro documento, talvez datado da primeira metade do segundo século”.

Existem, outrossim, supostas evidências teológicas contra a idéia desses versículos serem autênticos. Isto inclui: (1) o batismo como exigência para a salvação (Mc 16.16); (2) a aparição de Jesus em forma diferente (Mc 16.12); (3) idéias fantasiosas, tais como beber veneno e pegar em cobras (Mc 16.18). Desde que essas idéias parecem contrariar o restante da Escritura, a passagem deve ser rejeitada como sendo a Palavra inspirada de Deus, dizem os críticos.

Apesar de tais argumentos parecerem superficialmente conclusivos, eles não suportam um escrutínio mais detalhado das evidências.

Embora seja verdade que os dois manuscritos mais antigos que contêm Marcos 16 não incluem esses doze últimos versículos, existe vastíssima evidência externa que os apóiam como sendo originais. Mesmo não fazendo parte dos dois manuscritos gregos mais antigos, esses versículos são encontrados em virtualmente todos os manuscritos gregos restantes que contêm o final de Marcos. Todas as versões latinas e versões siriacas (versão mais antiga do NT em outro idioma) contêm esses versículos, com pouquíssimas exceções.

O mais importante é que os primeiros pais da igreja fazem citações deles e estão cientes deles (Justino Mártir, 150 a.D.; Ticiano, 175 a.D.; Irineu, 180 a.D. e Hipólito, 200 a.D.). Esses homens viveram 150 anos antes da composição do Códice Vaticano e do Códice Sinático (cerca de 325 a.D.), mostrando que esses versículos já existiam naquela época. Por alguma razão eles não foram incluídos, mas isso não indica que não existiam. Se este fecho mais longo não é original, por que há, então, tantos e diferentes testemunhos quanto à sua autenticidade? A evidência externa os favorece como sendo autênticos.

A evidência interna quanto a esses versículos serem originais é insatisfatória. Os argumentos relativos ao estilo e vocabulário, no mínimo, não convencem. Metzger (citado acima) salienta existirem dezessete palavras nesses doze versículos que não são encontradas em nenhum outro ponto do Evangelho de Marcos. Isto prova supostamente que esta seção não é autêntica (The Text ofthe New Testament, p. 227). Todavia, John Broadus fez um estudo dos doze versículos que precedem aqueles em questão (Mc 15.44-16.8) e encontrou dezessete palavras nessa seção que não são encontradas em nenhum outro ponto do evangelho de Marcos.

Sabe-se, perfeitamente, que o vocabulário e o estilo mudam conforme o assunto tratado. Basear um argumento em algo assim tão subjetivo não é valido. O argumento de que a ligação entre o v. 8 e os vv. 9-20 é forçada não basta para a omissão desta parte. Se os versículos foram acrescentados mais tarde por alguém, que não Marcos, por que a descontinuidade não foi atenuada? O argumento interno aqui não é tão sólido como alguns desejariam que fosse. (Veja John Burgon, Last Twelve Verses of Mark, Reprint, pp. 222-270.)

A evidência teológica não é igualmente conclusiva contra esses versos. Marcos 16.16 não ensina que o indivíduo precisa ser batizado para ser salvo, mas apenas liga a salvação com o ato do batismo, porque as duas coisas se completam.

A pessoa que aceita verdadeiramente a Cristo como seu Salvador desejará ser batizada, desde que isso é mandamento do Senhor. Contudo, não é o batismo que salva mas a fé: “Quem crê no Filho tem a vida eterna” (Jo 3.36). O batismo é o sinal externo objetivo da transformação interior. Essa deve ser a experiência de todo crente, não sendo porém uma exigência da salivação. Note que Marcos diz, no v. 16, que quem não crer será condenado e não quem não for batizado. Nada aqui é contrário às Escrituras.

A idéia de Jesus aparecer em outra forma não contradiz outros relatos da Sua ressurreição. Trata-se de uma simples descrição de Sua ida ao povoado de Emaús com os dois discípulos, em que Ele apareceu numa forma irreconhecível.

Isto difere de Suas aparições a Maria Madalena e a outras mulheres que O reconheceram imediatamente. Mas Lucas nos conta que, ao chegarem a Emaús, os olhos dos dois discípulos foram abertos e eles reconheceram Jesus. Não existe contradição aqui.

Marcos registra o ponto de vista de Jesus (forma diferente), enquanto Lucas dá o ponto de vista dos dois discípulos (olhos cegos). Além disso, o Novo Testamento parece indicar que Jesus, depois de Sua ressurreição, nem sempre apareceu na mesma forma.

Finalmente, os excessos surgidos como resultado de algumas interpretações sobre beber veneno e pegar serpentes não diminuem a sua autenticidade. Em Atos 28.3-6, temos um exemplo do apóstolo ser acidentalmente mordido por uma serpente mortífera e, mesmo assim, sobreviver.

Os sinais milagrosos prometidos aos discípulos do Senhor em Marcos não são inéditos, pois tanto Mateus como Lucas registram a promessa e o cumprimento desses sinais (Mt 10.1; Lc 10.17, 18). Do mesmo modo, Hebreus 2.3,4 indica que os sinais acompanharam os cristãos. O fato de ter havido abusos baseados nesses versículos não significa que eles devam ser descartados como não inspirados.

Por outro lado, três argumentos fortes podem ser dados para serem aceitos esses versículos como originais: (1) nenhuma teoria satisfatória foi apresentada para explicar como Marcos podia ou haveria de terminar seu Evangelho no v. 8; (2) nenhuma objeção sem resposta foi levantada contra a idéia de esses doze últimos versículos serem inspirados; (3) os argumentos apresentados para explicar a quantidade enorme de evidência objetiva quanto ao testemunho amplo e variado dos manuscritos gregos, traduções e pais da igreja, são insatisfatórios.

É muito mais fácil explicar por que a passagem poderia ter sido omitida em alguns manuscritos, em vez de tentar explicar por que foi tão aceita. Para uma resposta completa quanto à exatidão da teologia dos doze últimos versículos, veja The Interpretation of St. Mark’s Gospel , de R. C. H. Lenski ou um comentário específico desse evangelho. Acreditamos haver boas razões para serem aceitos os doze últimos versículos de Marcos, inclusos na ERAB, como sendo originais, desde que todas as objeções quanto à sua autenticidade deixam muito a desejar.


(Extraído: J. Macdowel)